Novo ano e as típicas resoluções

Por Sandra Maximiano, Professora do ISEG-Universidade de Lisboa e coordenadora do XLAB-Behavioural Research Lab

O início de um novo ano vem acompanhado de resoluções, metas e objetivos. Passar mais tempo com a família, organizar melhor o trabalho e aumentar a produtividade, viajar, aprender novas competências, comer de forma saudável e fazer mais exercício físico, são apenas alguns exemplos. Mas passar da palavra à prática não é fácil, e, para a maioria de nós, muitos destes objetivos serão sucessivamente adiados, até que, sem quase darmos por isso, teremos um novo ano à porta.

Para tornar as coisas mais complexas, vivemos, ainda, tempos pandémicos, com novas normas sociais e um elevado grau de incerteza. Como podemos saber se as pessoas e os lugares com quem contamos estarão lá para nos ajudar? Por exemplo, será que o ginásio funcionará sem restrições? Trabalharemos em casa ou voltaremos ao nosso local de trabalho?

Independentemente da conjuntura, as resoluções de ano novo são desafiantes, porque envolvem metas e objetivos que trazem benefícios no longo-prazo, mas sacrifícios de curto-prazo. E os indivíduos não são particularmente bons a lidar com esta dualidade temporal. Embora reconheçam a importância da concretização de um determinado objetivo, como, por exemplo, aprender uma nova competência se quiserem mudar de emprego, os benefícios de longo-prazo são difíceis de medir no momento de decidir se se vai à formação profissional ou sair com amigos. Quanto mais abstrata e distante no tempo for a recompensa, mais difícil é manter o autocontrolo e realizar as atividades subjacentes à meta traçada. Os benefícios de longo-prazo ficam assim, sucessivamente, para trás. Este processo de traçar objetivos que são benéficos para o nosso bem-estar a longo-prazo, e consecutivamente de os adiar nas decisões momentâneas, mostra que os indivíduos têm preferências temporais inconsistentes.

Mas, sendo assim, porque é que os indivíduos insistem nas resoluções de ano novo? Porque somos atraídos por datas especiais, por começos, seja ele o início do ano, do mês ou da semana, o dia do nosso aniversário, ou o dia em que mudámos de emprego. Estes dias marcam uma oportunidade de transição para um “novo eu”, para quebrar rotinas e para novos recomeços, estando associados o aumento de comportamentos aspiracionais. Estes dias proporcionam o que em economia comportamental podemos chamar de contabilidade mental temporal, ou seja é como se encaixássemos diferentes “eus” e com as suas inerentes qualidades e defeitos, metas e objetivos em diferentes caixas de tempo.

Um grupo de investigadores em ciências comportamentais analisou objetivos que envolvem a definição de metas e que exigem esforços repetidos, como fazer dieta e exercício físico. Foram realizados três estudos. O primeiro mostrou que o interesse dos indivíduos pelo tópico “dieta”, materializado pelo o número de pesquisas no google, varia consoante a altura da semana e mês. Existem cerca de 14,4% mais pesquisas no início da semana, quando comparadas com o fim da semana, 3,7% mais no início de cada mês e 82,1% mais no início do novo ano. Os efeitos não podem ser atribuídos a padrões gerais de tráfego da internet dado que a análise teve em conta este facto. Mais, pesquisas de outros tópicos populares, como jardinagem, notícias, clima, não sofrem deste efeito.

O segundo estudo usou dados da frequência diária de um ginásio universitário.  Os resultados foram semelhantes. No início da semana as visitas ao ginásio foram 33,4% superiores quando comparadas com o fim da semana, mais 14,4% no início do mês e mais 11,6% no início do ano. Mais, a frequência do ginásio é 7,5% mais alta no primeiro mês a seguir à data de aniversário em comparação com seis meses depois.

O terceiro estudo usou dados do website stickK, um site que ajuda os clientes a alcançar os seus objetivos pessoais, através da fixação de consequências, como a imposição de donativos a determinadas organizações, se as metas não forem alcançadas. Os resultados mostraram que os indivíduos são 62,9% mais propensos a se comprometerem com os seus objetivos no início da semana, 23,6% mais propensos no início do mês e 145,3% no início do ano.

Como superar estas barreiras comportamentais e cognitivas e ter mais sucesso com as resoluções de ano novo? Há duas estratégias, já testadas, que funcionam. Por um lado, deve-se introduzir fatores externos positivos ao objetivo ou meta. Por exemplo, no caso da aquisição de novas competências, sugere-se marcar um café com um amigo logo perto do local da formação. Se for ao ginásio, veja um filme que goste enquanto está numa bicicleta estática. Por outro, há que definir intenções de implementação detalhadas e pequenas metas de curto-prazo. Se intenciona correr a maratona em 2022, para além de preparar um bom plano de treino, sugere-se que se inscreva em outras corridas, de menor distância, a ocorrer entre o estabelecimento da intenção e a grande prova.

Com mais ou menos planos, resoluções, objetivos e metas, um feliz 2022.

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