“Vergonha” e “período negro”. Associações condenam subida dos combustíveis e temem que “muitas empresas venham a falir”

Um dia depois de se saber que já há postos de combustível a vender gasolina acima dos 2 euros por litro, a Multinews procurou falar com duas associações do setor, para saber o que pensam desta subida e quais as implicações e futuras consequências.

Para a Associação Nacional de Transportes Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), esta nova subida dos combustíveis é “uma vergonha”, estimando que por conta desta situação “muitas empresas de transporte venham a falir”.

“A Antram entende mais uma subida como uma vergonha. O Governo e a Apetro podem fazer mais do que têm feito para que as subidas sejam iguais aquilo que são noutros países, nomeadamente em Espanha”, começa por referir à Multinews André Matias de Almeida, porta-voz da associação.

Também a Associação das Transportadoras Portuguesas (ANTP), condena esta subida. “Em especial, no que ao sector das Transportadoras diz respeito, o combustível é um instrumento base de trabalho e os custos com o mesmo são determinantes para a sustentabilidade do setor”, refere à Multinews a Presidente, Sónia Valente.

“Os nossos Associados, demonstram muita preocupação e têm vindo a reivindicar esta constante subida de preços e a ANTP, enquanto associação empresarial está semanalmente em sobressalto com toda a envolvente dos preços de combustíveis”, acrescenta sublinhando que “se o panorama continuar a ser a subida, sem qualquer reajustamento em baixa, tememos pelo sector e claro, pelas empresas”.

Empresas em risco de falência 

André Matias de Almeida sublinha que “os combustíveis representam em média um custo 30% a 40% do custo total de uma empresa de transporte. Ora perante esta situação aquilo que vai acontecer é que é altamente provável que muitas empresas de transporte venham a falir”.

São já várias as empresas de distribuição que falam em prateleiras vazias por conta destes aumentos, “um cenário que muito nos preocupa e estamos convictos de que, se não existirem apoios às empresas de transporte, esta situação vai piorar”, alerta o responsável da ANTRAM.

Sónia Valente complementa falando num “período negro para a sustentabilidade de algumas empresas do setor” e sublinha que “é imperativo evitar situações de rutura e falência por parte de empresas transportadoras, não só por motivos sociais óbvios, mas também pelo impacto que terá economicamente”.

Desilusão com falta de apoio do Governo

Questionados sobre as declarações do ministro da Economia, Siza Vieira, que admitiu que os combustíveis vão continuar a aumentar, descartando uma descida de impostos, ambos reprovam essa atitude.

“A ANTRAM esperava ouvir que o Governo, perante esta escalada sem precedentes, pudesse – nem que fosse temporariamente – reduzir os impostos sobre os combustíveis, determinando também a sua descida”, afirma André Matias de Almeida. “Estas declarações servem apenas para surfar a onda das energias limpas, o que lamentamos profundamente”, acrescenta.

Já a Presidente da ANTP indica que apesar de estarem “conscientes de que este aumento de preços de combustíveis se deve em muito, à subida de preços em mercado internacional, a carga fiscal em Portugal é um fator preponderante. Como tal, é claro que esperávamos alguma neutralidade fiscal para o gasóleo profissional, isto, no que ao sector das transportadoras diz respeito”, reitera.

“Afirmamos não estar indiferentes aos constrangimentos globais que do ponto de vista orçamental têm de ser cumpridos, mas, frisamos também que, em tempos, o Executivo propôs benefícios fiscais para compensar os transportadores rodoviários pelo aumento dos preços dos combustíveis e lamentamos que o panorama atual seja precisamente o inverso”, acrescenta ainda.

Greves? Não estão em cima da mesa, mas poderão ser ponderadas

Quanto à possibilidade de avançarem com greves como as que se verificaram no passado e quase pararam o país, André Matias de Almeida começa por ressalvar que “a ANTRAM nunca foi palco ou catalisador de nenhuma greve e não pretende sê-lo”.

“Todavia, a verdade é que no passado as empresas já o fizeram e por preços de combustíveis mais baixos que o que atualmente se encontram em vigor e portanto não podemos garantir que as empresas, de forma independente e autónoma, não o irão fazer”, indica.

Apesar desta posição, a ANTRAM revelou em comunicado que vai definir algumas medidas para responder à situação. “Em resposta aos apelos das empresas associadas, foi decidido alterar o tema do congresso anual (nos 29 e 30 de outubro) de forma a que o mesmo seja centrado na análise e discussão do aumento dos custos com os combustíveis, e definir as medidas necessárias para responder a esta crise”.

Já Sónia Valente refere não ter “conhecimento de ações ou paralisações gerais programadas. Aliás, esperamos que algo do género não venha a acontecer pelas consequências que acarreta e pela forte componente social e económica em causa”, sublinha.

“No entanto, somos uma Associação Empresarial e estamos solidários e atentos aos problemas das empresas”, ressalva adiantando que “se a situação vier a revelar-se ainda mais «sufocante», é claro que algo do género poderá ser ponderado”, conclui.

Valores continuam a subir. Há bombas a vender gasolina acima dos 2 euros por litro

Recorde-se que os preços dos combustíveis voltaram a subir esta semana. “A evolução das cotações em euros aponta para mais um aumento dos preços, até 3 cêntimos por litro na gasolina e 3,5 cêntimos por litro no gasóleo”, adiantou fonte do setor à MultiNews.

Os preços dos combustíveis em Portugal têm registado uma trajetória ascendente. Com as subidas desta semana, os combustíveis registam um aumento de mais de seis cêntimos por litro em apenas duas semanas.

Segundo dados da Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG), o preço do gasóleo já subiu 38 vezes e desceu apenas oito desde o início do ano. Quanto à gasolina, aumentou 30 vezes e recuou apenas sete desde janeiro.

Ontem, o preço da gasolina especial ultrapassou, pela primeira vez, a barreira dos dois euros por litro. Algumas bombas da BP, e da Repsol em vários pontos do país, estão a cobrar perto de 2,01 euros por litro, para gasolina 98 aditivada.

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