Svitlana Mandrych: Autarca ucraniana gere cidade em ruínas a partir de um bunker e recusa abandonar a população

Chama-se Svitlana Mandrych, tem 51 anos, e é o rosto da resistência ucraniana perante o horror e a violência da invasão russa ao país. A mulher, vice-presidente da Câmara da pequena cidade de Orikhiv, está a cumprir funções depois de o autarca local ter abandonado a cidade, tendo-se refugiado com a família em Zaporíjia. O mesmo fez grande parte da população de 20 mil ucranianos que vivia em Orikhiv. Agora, numa cidade em ruínas, não chegam aos 2 mil.

Svitlana recusa desistir, e continua a fazer os possíveis e impossíveis para manter a cidade a funcionar. As ruas de Orikhiv são buracos e crateras feitos por bombas e mísseis. Praticamente todos os edifícios da cidade, públicos e residenciais, têm as fachadas danificadas, as janelas partidas. Não há hospital, nem sequer uma ambulância. Não há rede de distribuição elétrica, água canalizada, ou gás na cidade.

A autarca local, arregaça as mangas e, com uma equipa de mais duas pessoas, tenta garantir que nada falta a quem, como ela, se recusa a abandonar a cidade e deixá-la colapsar nas mãos dos russos.

Segundo indica a responsável ao The Washington Post, todos os 56 complexos de apartamentos estão danificados ou destruídos, 70% dos lares não têm condições de habitabilidade. As manhãs são os poucos momentos de calma, quando os bombardeamentos cessam. Às 11h00, os habitantes começam a espreitar para fora dos bunkers: é quando chega a ajuda humanitária diária a Orikhiv.

O mesmo faz a presidente da Câmara: sai do bunker. O edifício da Câmara Municipal de Orikhiv, à imagem da cidade, está em ruínas. O segundo andar foi atingido por um míssil. No exterior, as paredes estão forradas com marcas de bala. No bunker improvisado, criado na cave, há duas mesas de madeira e uma única lâmpada para iluminar a sala. É o gabinete de Svitlana Mandrych e da sua equipa.

Com pouco pessoal, há muito a fazer: a autarca garante abastecimento e distribuição de comida e água aos residentes que resistem, depois distribui cobertores e agasalhos, ouve as necessidades de cada família. Distribui algum dinheiro por quem ficou sem nada. Recentemente, e equipa conseguiu distribuir mais de 600 aquecedores alimentados a madeira aos residentes. Mais 350 estão encomendados, mas a autarca teme que não sejam suficientes para chegar a todas as famílias, em especial quem vive em zonas mais remotas.

“Tenho muito medo de me esquecer deles, de não lhes dar a devida atenção. Com o frio que está a chegar, as pessoas vão morrer”, lamenta a presidente da Câmara.
A pouco mais de oito quilómetros há uma frente de guerra, pelo que os momentos de calma são poucos. Ainda na segunda-feira, voluntários estavam a descarregar bens humanitários que chegaram à cidade, quando começaram novos bombardeamentos. Uma pessoa morreu e outra ficou gravemente ferida.

Sem hospital ou ambulância, sempre que há uma emergência, são as tropas ucranianas a ajudar os residentes de Orikhiv. Entre os militares Svitlana Mandrych é bem conhecida: deram-lhe a alcunha de ‘Anjo’ e é normal estarem em contacto com ela, avisando-a de eventuais ofensivas montadas contra a cidade.

Svitlana diz que a reconquista de Kherson trouxe mais esperança, e conta os dias para que as tropas russas voltem a tomar Zaporíjia.

“Estamos à espera de que esta ofensiva aconteça. Esperávamos que pudesse ser mais cedo. Só podemos viver com esperança. È o que nos tem mantido vivos e sãos”, termina a presidente da Câmara de Orikhiv.

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