Rússia está a contrabandear grãos ucranianos para financiar guerra de Putin, denuncia responsável

A Rússia tem contrabandeado o grão ucraniano para financiar a guerra de Putin, denunciou esta segunda-feira a ‘Associated Press’, na sequência de um trabalho investigativo, que revelou que o navio ‘Laodiceia’, da propriedade da Síria, faz parte de uma sofisticada operação de contrabando russo que tem usado manifestos falsificados e de subterfúgio marítimo para roubar grãos russos no valor de pelo menos 543 milhões de euros.

O ‘Laodicea’ atracou no Líbano no último verão, o que provocou um alerta dos responsáveis ucranianos de que o navio estava a transportar grãos roubados e instaram as autoridades libanesas a apreender o navio. Moscovo considerou a alegação “falsa e infundada”, ao passo qeu o procurador-geral do Líbano ficou ao lado do Kremlin, declarando que as 10 mil toneladas de cevada e farinha de trigo não tinham sido roubadas.

Através de imagens de satélites e dados de transponders de rádio marítimo foi possível rastrear três dúzias de navios que fizeram mais de 50 viagens transportando grãos de áreas ocupadas pelos russos na Ucrânia para portos na Turquia, Síria, Líbano, entre outros países. O contrabando, segundo diversos especialistas júridicos, pode constituir um potencial crime de guerra.

Os russos “têm a obrigação absoluta de garantir de que os civis não são privados da sua capacidade de subsistência e de alimentação”, referiu David Crane, promotor veterano que esteve envolvido em várias investigações internacionais de crimes de guerra. “É pura pilhagem e isso também é uma ofensa passível de ação sob a lei militar internacional.”

Vídeos publicados nas redes sociais nos últimos meses mostram um fluxo constante de camiões de transporte de grãos que se deslocam para o sul através das áreas ocupadas da Ucrânia. O Kremlin negou ter roubado qualquer grão mas a agência de notícias estatal russa ‘TASS’ informou, a 16 de junho último, que os grãos ucranianos estavam a ser transportados para a Crimeia, no que resultava em longas filas nos postos de fronteira.

Uma imagem de satélite de 11 de julho mostra o Laodiceia amarrado num porto em Feodosia, na Crimeia. O transponder de rádio do navio estava desligado e os seus porões de carga estavam abertos, sendo preenchidos com uma substância branca dos camiões que esperavam. Duas semanas depois, quando chegou à cidade portuária libanesa de Trípoli, alegou estar a carregar grãos de um pequeno porto russo do outro lado do Mar Negro.

Impossível: o Laodiceia não poderia ter recolhido a sua carga em Kavkaz, o porto russo listado no manifesto. O casco do navio, que chega a 8 metros abaixo da superfície, encalharia no porto relativamente raso, que segundo o regulador de transporte da Rússia só pode acomodar navios com profundidade máxima de 5,3 metros. O porto em Feodosia tem mais de duas vezes a profundidade – facilmente capaz de acomodar o grande navio. O Laodiceia é um dos três navios de carga a granel operados pela Syriamar Shipping, uma empresa estatal síria sob sanções dos Estados Unidos desde 2015 pelos seus laços com o regime do presidente sírio Bashar al-Assad.

Outra empresa envolvida no contrabando de grãos é a United Shipbuilding, uma empresa de defesa estatal russa que constrói navios de guerra e submarinos para a marinha russa. A empresa, através da sua subsidiária Crane Marine Contractor, comprou três navios de carga apenas algumas semanas antes de Putin invadir a Ucrânia. Os três navios fizeram pelo menos 17 viagens entre a Crimeia e portos na Turquia e na Síria.

O papel da Turquia no roubo de grãos ucranianos é particularmente sensível porque o país da NATO tentou desempenhar o papel de mediador entre os dois países em guerra. A Turquia ajudou a intermediar um acordo entre a Rússia e a Ucrânia em julho para permitir que ambos os países exportassem grãos e fertilizantes através de corredores seguros no Mar Negro.

Nos últimos dois meses, as autoridades ucranianas disseram que mais de 150 navios de transporte de grão partiram de portos que ainda controlam, incluindo embarques para a Somália e o Iémen, nações devastadas pela guerra que atualmente enfrentam fome.

Ami Daniel, CEO da empresa de análise de dados marinhos ‘Windward’, garantiu que os navios ‘no escuro’ são uma bandeira vermelha de que algo ilegal está a decorrer, frisando que é comum os contrabandistas falsifiquem manifestos de embarque e declarações alfandegárias para esconder a verdadeira origem da sua carga. “A falsificação ilegal de documentação é uma tática usada por maus atores para disfarçar a origem das mercadorias que estão a transportar, seja para fugir de sanções, traficar mercadorias ilícitas ou outros crimes”, finalizou Daniel, antigo oficial da marinha israelita.

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