Reino Unido: Sunak e Truss unidos na ‘herança’ Thatcher e divididos na de Boris

Liz Truss e Rishi Sunak apresentam-se ambos na corrida à liderança do partido Conservador como ‘herdeiros’ de Margaret Thatcher, enquanto na campanha emergem percepções divergentes sobre a sua ligação ao legado do antecessor, Boris Johnson.

Os legados de Johnson e Thatcher têm-se tornado tópicos de discussão, numa altura em que os dois candidatos realizam uma série de debates públicos em todo o país, estando esta noite na SkyNews naquele que deverá ser o último frente-a-frente televisivo.

​​​​​O sinal mais recente da influência dos ex-líderes foi, durante um comício em Leeds na semana passada, ​​​​​​​quando um militante acusou Rishi Sunak, antigo ministro das Finanças, de ter “apunhalado nas costas” Boris Johnson.

Sunak “é um bom vendedor e tem muitos atributos fortes, mas muitas pessoas continuam a apoiar Boris Johnson, que implementou medidas consistentemente em tempos difíceis”, e “infelizmente pensam que você o apunhalou pelas costas”, disse o militante, num dos momentos mais marcantes dos frente-a-frente entre os dois candidatos à sucessão​​​​​​​.

O candidato a primeiro-ministro respondeu que “tem orgulho neste governo”, mas que “pessoalmente chegou a um ponto” em que se demitiu por divergências sobre conduta e como enfrentar com a crise económica.

Johnson demitiu-se da liderança dos ‘tories’ em 07 de julho, após dezenas de mais de 50 membros do governo se demitirem, incluindo Rishi Sunak dois dias antes, desencadeando uma eleição que vai determinar também o sucessor na chefia do governo.

A ministra da Cultura, Nadine Dorries, qualificou de ”golpe” as circunstâncias em que Boris Johnson foi forçado a demitir-se, e uma petição para que o primeiro-ministro pudesse concorrer contra Sunak e Truss recebeu mais de 10.000 assinaturas.

Vista como a candidata da continuidade, a ministra dos Negócios Estrangeiros não desperdiça esta vantagem, tendo reivindicado o facto de, ao contrário de muitos colegas, não se ter demitido nem criticado publicamente o líder.

“Eu sempre fui admiradora de Boris Johnson, acho que ele fez um trabalho fantástico como primeiro-ministro. Tive orgulho em servir como membro leal do seu governo”, afirmou.

Se Rishi Sunak não pode invocar a proximidade a Boris Johnson, pelo menos tem tentado insistir nas credenciais de “verdadeiro conservador” e herdeiro de Margaret Thatcher, primeira-ministra entre 1979 e 1990.

“Os meus valores são thatcherianos. Acredito no trabalho árduo, na família e na integridade. Sou um thatcheriano, concorro como um thatcheriano e irei governar como um thatcheriano”, alegou, num artigo para o jornal Daily Telegraph.

O antigo ministro das Finanças considera que é isso que está a fazer ao resistir a cortes fiscais para aliviar o impacto da inflação recorde de 9,4% nas pessoas e empresas no Reino Unido, para se concentrar em reduzir o elevado endividamento devido às medidas tomadas durante a pandemia covid-19.

O aumento da contribuição para a segurança social imposto em abril e a subida planeada do imposto sobre as empresas visa “pagar a conta”, plano que considera o mais “responsável” e mais “conservador”.

Liz Truss também tem invocado o espírito da “dama de ferro”, e não apenas por ser mulher.

O que admira em Thatcher, disse numa entrevista ao Daily Mail, é que ela “desafiou a ortodoxia”, algo que pretende imitar com as promessas de cortar impostos à custa de maior endividamento público para aliviar o impacto da crise do aumento de custo de vida e estimular a economia.

As propostas, que poderão custar mais de 30.000 milhões de libras (36.000 milhões de euros) foram recebidas com desconfiança por especialistas, que receiam que contribuam para um aumento da inflação.

“Havia 364 economistas que se opunham ao plano da senhora Thatcher”, lembrou Truss, ao recordar o episódio em que académicos britânicos subscreveram uma carta à então primeira-ministra para a avisar para os riscos para a economia do aumento de impostos contido no orçamento de 1981.

Ao resistir a um esperado corte de impostos, Thatcher demonstrou determinação em controlar o défice orçamental, o que atraiu a confiança dos mercados e permitiu a redução das taxas de juro, iniciando um período de crescimento económico.

Rishi Sunak visitou a antiga circunscrição de Margaret Thatcher – Grantham, no centro de Inglaterra – ​​​​​​​para promover o “thatcherismo de bom senso”, mas a ministra dos Negócios Estrangeiros tem-se insinuado de forma mais subtil.

Em fevereiro, Liz Truss fez-se fotografar em Moscovo com um casaco e chapéu de pele semelhantes aos que a antiga primeira-ministra usou na mesma cidade em 1987, tal como a imagem em cima de um tanque militar em novembro do ano passado remete para uma de Thatcher em 1986.

Também não escapou aos espetadores mais atentos, nem as redes sociais perdoaram, quando se percebeu que o estilo da blusa com laço no colarinho de Truss no primeiro debate televisivo desta eleição era idêntico ao que Thatcher usou em 1979.

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