Psicólogos dão o alerta: Há uma “tendência crescente” para o discurso de ódio nas redes sociais e isso está a afetar (muito) a saúde das pessoas

O comportamento dos utilizadores de redes sociais e membros de grupos de aplicações de mensagens é cada vez mais preocupante por ser abusivo e desregrado com comentários ofensivos e desrespeitadores em grupos públicos ou privados. Crianças, jovens e adultos pertencem a comunidades digitais onde são feitos julgamentos críticos e com um enorme impacto e reflexo no mundo real.

Sentir que as mensagens trocadas num grupo são privadas é uma ilusão porque online “o privado, o íntimo e o público estão todos misturados”, comentou a psicóloga Clínica e da Saúde Ivone Patrão, especialista em questões do mundo online e fundadora e coordenadora do projeto ‘Geração cordão’, em entrevista à Multinews.

Recordando o recente episódio da partilha das mensagens de ódio e racismo das figuras de autoridade, a psicóloga ressaltou que “as forças de segurança deviam dar o exemplo”, mencionando o programa da PSP ‘Escola Segura’, onde agentes vão às escolas abordar precisamente o cyberbullying, burlas online, discursos de ódio e roubo de identidade com o intuito de sensibilizar sobre a importância da comunicação digital. “Há uma net etiqueta também online, não é só quando estamos na presença de outros que não vamos desrespeitar e maltratar, online também temos regras”, acrescentou.

Os adultos são, para a psicóloga, “modelos educacionais de crianças e jovens” tanto presenciais como no digital, o que muitas vezes é esquecido por pais, educadores e figuras de autoridade – o facto de serem vistos “como um exemplo”.

Grupos online podem gerar “falsa ideia”

Qualquer comunicação online pode ser alvo de cópia e partilha voluntária ou o dispositivo pode ser ‘hackeado’ e o que era privado “passou a estar público, visível”. Embora os grupos de amigos possam gerar a “falsa ideia” de que o conteúdo não vai ser divulgado, a questão de segurança coloca-se não só com a Internet como com o próprio dispositivo que se está a usar. Os grupos são “uma forma de pertencer a algo, uma forma de união”, referiu Ivone Patrão ao explicar que “quando algo nos incomoda e encontramos alguém nas mesmas circunstâncias, do ponto de vista psicológico e sociológico, gera-se identificação e comunicação”.

A sensação que estas comunidades digitais passam de “espaço privado reservado” transmite às pessoas “um otimismo irrealista, que é um mecanismo”, acreditando que não tem consequências. Existe diferença entre a comunicação presencial e a comunicação online, dado que “presencialmente as pessoas sentem-se mais envergonhadas, existe contacto visual, contacto com a reação do outro, enquanto online já não existe aquele olhar que pode ser de reprovação”, esclareceu a psicóloga destacando que online as pessoas “identificam-se mais facilmente e sentem-se mais à vontade para comunicar e partilhar”.

Os mais introvertidos admitem que é “muito mais fácil comunicar online” do que presencialmente ou que preferem o primeiro contacto online e, depois de estar mais à vontade, passam para a conversa presencial, revelou a especialista. A acessibilidade e este facilitismo em pertencer a um grupo online pode fazer com que “a questão da privacidade se anule um pouco” num meio pouco empático com pouca compreensão pela diversidade.

A divulgação de conteúdos que se pensava serem privados tem consequências tanto no crescimento das crianças como na saúde mental dos adultos e vida social. “Isto tem um impacto atroz, tem um impacto muito significativo no desenvolvimento dos jovens”, frisou a especialista argumentando que os jovens “não têm maturidade emocional, nem literacia digital”.

Mundo online pode ser “um escape”

A seu ver, saber comportar-se online “é uma aprendizagem” e, como tal, deve ser supervisionada para conteúdos adequados para a idade. Quando a introdução ao mundo digital não é feita pode ter um impacto negativo, “cada vez que há uma baixa supervisão parental, as crianças e adolescentes são mais dependentes da tecnologia e mais alvo de cyberbullying e discursos de ódio”.

O mundo online para os adultos pode ser “um escape” e resposta ao isolamento e à solidão, alertou a responsável ao elucidar que a Internet pode ser adotada como companhia, permitindo a aceitação de diversas formas de trato, comunicação e conceito de pertença.

Também o Covid-19 foi um fator de risco nesta temática, forçando as pessoas a deixar de estar presencialmente e optar pelo mundo online. Como consequência, após a pandemia, muitas não recuperaram o equilíbrio entre os dois e “resgatam-se mais no mundo online, onde há grupos que têm discursos de ódio que com um grande impacto” com discursos negativistas, destrutivos e críticos.

Quanto às diferenças de géneros, tanto nos jovens como adultos, as mulheres dependem mais das redes sociais e os homens do jogo online, onde se estabelece comunicação, muitas vezes, através de “discursos muito agressivos, difamadores e discriminatórios”, o que se traduz em mais sofrimento psicológico que “é destrutivo da autoestima”.

Apesar de homens e mulheres terem diferentes vivências online, a psicóloga diz que não existe mais tendência para um determinado género fazer comentários de ódio e racismo, relacionando a motivação destes discursos com caraterísticas pessoais, da personalidade, de inclusividade e sentimento de facilitismo online.

Emoções e necessidades “são fatores muito poderosos”

Já a faixa etária poderá influenciar a reação e nível de participação de cada um em grupos online. Enquanto os adolescentes estão numa fase de testagem dos seus limites, “são mais impulsivos nas respostas, refletem menos antes de responder” – o que poderá resultar em “mais volume de comunicação e um comentário seguir-se de imediato a outro comentário” -, os adultos podem ser “mais demorados na resposta e haver menos volume de comunicação”.

Embora os mais velhos possam estar mais conscientes das consequências e impacto que causam nos outros, “o conhecimento não chega para mudar comportamentos, ou seja, sabem que devem comportar-se de determinada maneira online, mas há outras variáveis que influenciam a tomada de decisão para participar neste tipo de comentários”. As emoções e necessidades “são fatores muito poderosos” assim como o sentimento de pertença e integração, advertiu a especialista.

O equilíbrio entre a vida online e offline reflete-se tanto na forma como a tecnologia é utilizada como na saúde mental e física de crianças e adultos. Outros aspetos destacados são a capacidade de “autorregular o comportamento”, o desenvolvimento do juízo crítico e empatia online. Na ótica da psicóloga, é necessário aumentar este sentido de avaliação face a diversas situações tanto por parte de quem participa como para quem é apenas ‘espectador’, salientando que “permite-se situações de ódio porque ‘foram só online, foi só um comentário’. Contudo, ser ‘só um comentário’ tem consequências negativas porque foi dirigido a alguém, visualizado por outras pessoas e não é empático”.

Este comportamento, que cada vez mais se manifesta no mundo digital, parece à especialista “uma tendência crescente” assim como a dificuldade em lidar com o impacto das tecnologias na vida real. A abordagem inicial teria, segundo a responsável, de ser feita com “uma sensibilização e conversa com negociação, limites e supervisão”.

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