Portugueses têm novas rotinas de compras face ao aumento dos preços: só o essencial, de marca branca e evitar desperdícios

O aumento generalizado dos preços, nos últimos seis meses, levou os portugueses a novas rotinas de compras, muito mais planeadas e onde só entra mesmo o necessário – reduziu-se o que se coloca no carrinho, escolhe-se sempre o mais barato, sobretudo de marca branca, e só se fazem compras depois de se esgotar o que há na despensa, referiu esta 6ª feira o jornal ‘Expresso’.

“Está tudo muito mais caro. O preço de um pacote de esparguete quase duplicou e dois sacos de compras, sem carne nem peixe, chegam facilmente aos 30 euros”, lamentou Angelina Almeida, assistente social de 47 anos, que vive em Lisboa, num espelho das alterações de padrões de consumo provocadas pela subida acentuada da inflação – que chegou aos 9,1%, o nível mais alto dos últimos 30 anos. E na alimentação é ainda mais elevada (13,9%), obrigando os portugueses a mudar de hábitos para encolher a conta de supermercado, segundo revelaram os dados do INE.

A quantidade de bens alimentares adquiridos pelas famílias está a cair desde fevereiro, tendo recuado 0,4% face ao mesmo mês de 2021 – a escolha preferencial de marcas brancas, a redução da quantidade de bens adquiridos em cada compra e a quebra de vendas de produtos não essenciais são as principais tendências identificadas por consultoras, associações de consumidores e cadeias de supermercados.

“Antes, a maioria dos portugueses ia ao supermercado fazer a compra do mês. Agora vão mais vezes mas trazem muito menos coisas. Planeiam mais o que precisam e estão mais atentos às promoções”, referiu Ana Guerreiro, porta-voz da DECO Proteste, que monitoriza diariamente a evolução dos preços nos supermercados. Neste momento, o custo de um cabaz básico de 63 produtos essenciais – que inclui, por exemplo, leite, queijo, manteiga e fiambre, arroz, farinha, massa e açúcar, além de carne, peixe, frutas e legumes – chega aos €211,24, mais €28 do que há seis meses. Só na última semana, aumentou mais quatro euros. Por categorias, o peixe e a carne sofreram os maiores aumentos, com subidas que atingiram 22% e 17%, respetivamente.

A subida dos preços colocou 40% dos portugueses, inquiridos num estudo da DECO, a cortar nos bens alimentares não essenciais, como álcool, doces e salgados. Também os produtos de higiene e drogaria estão entre os que registam as maiores quebras. “As vendas de alguns produtos não essenciais têm decrescido”, confirmou o Pingo Doce. E mesmo nos produtos básicos, as famílias estão a cortar na quantidade.

“Notamos uma maior compra de formatos mais pequenos em detrimento de formatos maiores e um aumento da ida às nossas lojas, mas com uma compra menor em cada visita”, revelou Helena Guedes, diretora comercial do grupo Dia. A “retração nas quantidades vendidas” foi também destacada pelo Auchan. “Existe uma redução da compra por impulso e uma rotina de compra mais organizada”, explicou o Lidl.

57% das famílias portuguesas estão a “vigiar cuidadosamente os seus gastos, comparando ainda mais os preços, evitando desperdícios e fazendo mais listas de compras”, apontou a Nielsen, consultora especializada na área do consumo. A venda dos bens de consumo rápido – os mais vendidos nos supermercados, como alimentação e higiene – recuou 0,3% no primeiro semestre deste ano.

Apesar de estarem a levar para casa menos produtos, “o valor médio da compra [de supermercado] manteve-se mais ou menos igual, devido ao efeito da inflação”, lamentou o diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), Gonçalo Lobo Xavier. “Nitidamente, as pessoas estão a fazer uma gestão muito mais rigorosa do seu orçamento e a alterar o seu consumo em função das promoções. Se numa semana há promoção de carne de porco, é essa que consomem.”

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