Porque é que os morcegos com fome podem ser responsáveis pela próxima pandemia? Este estudo explica

A próxima pandemia global pode estar a ‘voar’ nas asas de morcegos com fome. Quem o diz são os autores de um novo estudo científico, que descobriu que estes animais, quando privados de comida, têm maior probabilidade de passar vírus e doenças a outros animais e humanos. A descoberta pode ajudar a prever quando ocorrerão novo surtos.

Os dois estudos, publicados na revista Nature e na Ecology Letters, analisaram as chamadas ‘raposas-voadoras’ da Austrália, ou seja, espécies de morcegos de grandes dimensões e descobriram que estes ‘mega-morcegos’, cuja envergadura de asa ultrapassa um metro, e concluíram que estas transmitem muito mais vírus quando estão esfomeados. Ao mesmo tempo, os voos que fazem, mais longe, para procurar comida, aproximam-nas mais dos humanos e gado, aumentando o risco de que os vírus e infeções passem destes morcegos para outras espécies.

Entender os vetores responsáveis para que os agentes patogénicos ‘saltem’ para outras espécies poderá ajudar a prever quando e como ocorreram estes eventos de transmissão, e ajudar a prevenir uma eventual nova pandemia.

As investigações focaram-se no vírus Hendra, que causa uma doença respiratória e neurológica rara, e que é transmitido por estes morcegos, que são resistentes a estes e outros vírus devido a um sistema imunitário ‘supercarregado’.

A doença, que afeta sobretudo cavalos e que tem uma taxa de mortalidade entre estes animais de 75%, foi primeira vez identificada na Austrália em 1994. E também pode infetar humanos, como explicam os autores, que analisaram os casos de duas pessoas que ficaram infetadas com a doença após contacto com cavalos infetados.

Concluem os cientistas que o vírus passou de morcegos para cavalos em 60 distintos eventos de transmissão do vírus, que acabaram por resultar também na passagem do vírus para humanos, causando sete infeções, quatro das quais fatais.

Os cientistas australianos e norte-americanos que participaram no estudo estavam a recolher dados há 25 anos, para melhor perceber como o vírus passou dos morcegos australianos para os humanos. E descobriram que os surtos de Hendra ocorreram sempre que as raposas-voadoras tinham escassez de comida. Sempre que as flores de eucalipto não eram tão abundantes, observou-se maior disseminação da doença pelos morcegos. Quando havia em abundância, não havia fenómenos de transmissão entre espécies.

A desflorestação e as alterações climáticas significam que as árvores estão a produzir cada vez menos flores, o que representará um risco acrescido para a transmissão destas doenças dos morcegos para outras espécies.

Também os exemplares analisados pelos investigadores revelaram que os morcegos tinham maior concentração do vírus Hendra no inverno, depois da falta de néctar. Isto significa que os morcegos com fome não têm a anergia suficiente para manterem o sistema imunitário em pleno funcionamento para controlar todos os vírus que podem coexistir nestes animais.

“Estratégias que garantam que os animais têm o que comer, têm habitat suficiente e não estão sob stress e conseguem mover-se pelo ambiente sem risco de se cruzarem com humanos, todas contribuem para reduzir o risco de transmissão para outras espécies”, explica ao Telegraph Raina Plowright, professora na Universidade de Cornell.
A descoberta da forma como o vírus se adaptou poderá dar pistas também sobre a forma como o SARS-CoV-2 chegou ao ser humano.

“Precisamos de sequenciar todo o genoma viral destes vírus de morcegos em circulação, não apenas pequenas partes [porque eles sofrem mutações e recombinam-se constantemente]. Se não sequenciarmos todas as partes, até as mais pequenas, podemos perder informação importante que pode revelar a pré-história do SARS-CoV-2”, aponta Joel Wertheim, biólogo da Universidade de San Diego, nos EUA, e um dos autores do estudo.

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