Mudanças climáticas ou eventos extremos? EUA vivem combate do clima a dois ritmos

O governador da Flórida, Ron DeSantis, quer 500 milhões de dólares para proteger o seu estado da devastação de “eventos climáticos extremos”. O governador do Texas, Greg Abbott, dedicou 1,6 mil milhões de dólares à preparação de comunidades para furacões cada vez mais devastadores. Mas ambos não dizem se acreditam nas mudanças climáticas.

Mesmo que os políticos conservadores não tenham estômago para essas palavras, estão a gastar dinheiro para combater as consequências que atingem os seus estados e cidades. A preparação para o aquecimento global é a rara questão climática que ‘une’ republicanos e democratas nos Estados Unidos e 34 estados já estabeleceram planos de adaptação climática, segundo apontou o rastreador de políticas estaduais da Universidade de Georgetown.

Os custos vão continuar a subir conforme as políticas climáticas do EUA e do mundo ficarem aquém do necessário para evitar o agravamento das ondas de calor, inundações e incêndios. Os EUA gastaram quase 700 mil milhões de dólares nos últimos cinco anos e uma avaliação climática federal de 2018 estimou que as perdas anuais podem chegar “às centenas de biliões de dólares” em 2100.

“Precisamos fazer isso. Temos mais quilómetros lineares de orla marítima do que qualquer outra cidade americana”, frisou Matt Carlucci, vereador republicano em Jacksonville, a maior cidade do estado da Flórida. “O sector dos seguros dirá que os furacões tornar-se-ão mais frequentes e severos à medida que as mudanças climáticas continuam a acorrer”, apontou.

Os democratas em estados de azul profundo costumam tornar explícita a conexão com a mudança climática. O governador Gavin Newsom, da Califórnia, escolheu o Parque Nacional da Sequoia, onde os incêndios ainda acontecem, como pano de fundo para assinar um projeto de lei que dedica 3,7 mil milhões de dólares à resiliência climática. “Somos o ponta de lança em termos das consequências da nossa negligência em descarbonizar”, frisou. Em Nova Jersey, o governador democrata Phil Murphy propôs expandir o programa de compra ‘Blue Acres’ do estado para propriedades sujeitas a enchentes, depois de o furacão Ida ter abalado o estado em setembro, matando 30 pessoas nas enchentes.

A polarização da política americana encontra no clima o seu ponto mais alto. Republicanos conservadores recusam-se a ligar explicitamente o aquecimento global com as mudanças climáticas. De Santis, governador da Flórida, é um exemplo. “Não estou preocupado com qual é a única casa. Se há água nas rudas é preciso encontrar uma maneira de combater isso”, explicou, sem mencionar o aquecimento global quando pediu o financiamento, garantido que “deixaria muito mais capazes de lidar com alguns eventos climáticos extremos”.

“As políticas não precisam necessariamente de mencionar o clima para ajudar a adaptar-se a ele”, lembrou Bob Kopp, cientista do nível do mar e de políticas climáticas da Universidade Rutgers. “Se se tirar as pessoas dos seus espaços hiperpolíticos, acho que a maioria das pessoas não quer que as suas casas inundem”, disse.

Mas é difícil medir se os dólares gastos para fortalecer as comunidades contra os efeitos do aquecimento global são bem gastos, já que o sucesso geralmente é definido por perdas e danos evitados. Um estudo financiado pela FEMA estima que as medidas de adaptação geralmente economizam entre 4 e 11 dólares por cada dólar gasto. “É difícil medir algo que não está lá”, disse Kathryn Conlon, codiretora do Centro de Pesquisa de Adaptação Climática da Universidade da Califórnia.

O tipo de ação que conta como resposta à mudança climática também é um conceito escorregadio. Os republicanos são mais propensos a registrar as políticas em “desenvolvimento”, “mitigação de desastres” ou “resiliência”, em vez de adaptação climática. Os custos crescentes dos desastres naturais, entretanto, são inconfundíveis. Eventos climáticos extremos nos últimos 5 anos custaram aos EUA pelo menos 700 mil milhões de dólares, de acordo com a National Oceanic Atmospheric Administration, mais do que o dobro dos 5 anos anteriores, o que se deve em parte ao crescimento populacional em áreas vulneráveis ​​e mais ativos sendo colocados em risco, e em parte ao aumento da frequência de condições meteorológicas extremas.

Na Califórnia, “ter uma seca extrema e incêndios florestais extremos e quebrar recordes de calor, tudo ao mesmo tempo, está realmente a forçar o debate”, lembrou Rachel Ehlers, analista fiscal e política do Gabinete de Analista Legislativo da Califórnia, que observou pelo menos 10 projetos de lei nesta sessão legislativa do ano que tratam do aumento do nível do mar.

Carlucci, republicano de Jacksonville, diz que também quer que a cidade reduza a sua pegada de carbono – e que tenta converter os céticos da mudança climática referindo-se a “partes da Bíblia que falam sobre o que acontece nos últimos dias”. “Se não acha que é feito pelo homem, então vá para o livro do Apocalipse e faça uma leitura. Vai falar sobre a mudança climática nos últimos dias”, disse. “Isso praticamente encerra a discussão, para que possamos seguir em frente e conversar sobre o que realmente importa. E isso está a tornar Jacksonville uma cidade mais resiliente.”

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