Máscara obrigatória nas escolas mas não em bares e discotecas? É uma “comparação ingrata”, dizem especialistas

O uso de máscara continua a ser obrigatório dentro das salas de aula, mas não é em bares e discotecas, o que tem gerado uma onda de criticas e incompreensão, por parte de pais e alunos.

Especialistas ouvidos pela Multinews consideram que a medida deve manter-se nas escolas, pelo menos nesta fase, e que a comparação entre estes espaços e os de lazer é “ingrata” porque são circunstâncias distintas.

“Essa comparação entre os bares/discotecas e as escolas é um bocado ingrata, porque estamos a falar de um espaço, a escola, onde as crianças passam 8h por dia, ou mais, e onde têm um convívio alargado no tempo e até mesmo no contacto, para além de que não vão por livre vontade, são obrigadas”, ressalva Gustavo Tato Borges, presidente da Associação nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP).

Por outro lado, adianta, “nos bares e discotecas, estamos a falar de jovens acima de 16 anos, que vão por livre vontade, uma vez por semana, passar algumas horas. São dois espaços muito diferentes”, sublinha, ressalvando contudo, que também nesses locais de lazer “as pessoas deviam usar máscara”.

“As discotecas e bares deviam ter um espaço disponível para o consumo de bebidas, onde as pessoas estariam mais ou menos distanciadas uma das outras, sem máscara e um espaço de dança, onde as pessoas não poderiam consumir e estariam a dançar com máscara”, aponta o médico de saúde pública.

Da mesma forma, refere, “o uso de máscara dentro das escolas é uma medida bastante interessante e positiva, no sentido em que protege as crianças e permite-lhes fazer algum tipo de convívio e aprendizagem. Sabemos que não é o ideal, mas é um mecanismo de proteção bastante adequado”.

“Custa-me que olhemos para algo que não está totalmente bem, que são os bares e discotecas, e que queiramos que nas nossas escolas aconteça o mesmo. Não é por uma coisa não estar a ser bem aplicada num local, que onde está isso tem de mudar”, reitera o responsável.

Segundo Tato Borges, “tirarmos as máscaras agora teria sido um problema muito maior para a transmissibilidade da doença e para o boom de casos a que assistimos nesta camada populacional, onde há uma grande proporção de crianças que nem sequer uma vacina tem”.

Da mesma opinião é Óscar Felgueiras, matemático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). “Neste momento continua a haver uma necessidade de se manterem algumas medidas e sabemos perfeitamente que na escola alguns alunos ainda não estão vacinados e como regra geral ainda se justifica o uso da máscara”, sublinha.

“Essa exceção que no fundo acontece com os bares e discotecas pode ver-se pela lógica de que quem vai a esses espaços fá-lo por sua conta e risco, ao passo que ir para a escola é uma obrigatoriedade”, indica.

Para o matemático, “as pessoas devem ter noção de que o ideal é continuar a usar máscara em espaços interiores, essa é a recomendação geral. Agora também há alguns limites e as discotecas são uma circunstância excecional”, aponta.

“Sabemos que em, termos de vacinação, os mais jovens são os que têm menos cobertura de momento, existe certamente algum fundamento para que se mantenha o uso de máscara nas escolas, agora é algo que se a evolução o permitir, pode cair em breve”, refere.

A par disso, “a maior incidência continua a estar na faixa etária dos 10 aos 19 anos, comparativamente com outros grupos, há uma concentração de casos. A evolução está favorável, mas continuam a ser os mais atingidos e também por isso creio que tem lógica a manutenção do uso de máscara”, reitera.

“Nesta fase ainda é desaconselhável aumentar o risco de exposição ao vírus. A lógica de ainda estar implementado o uso de máscara é tentar evitar situações que já estão a ocorrer lá fora, de haver um aumento e casos após o alivio de medidas”, explica.

Em Portugal, acrescenta, “levantámos quase tudo, menos isso. Esta será a última matéria e o objetivo é ter alguma segurança, para que, uma vez atingido o referencial de 20 óbitos, se consiga avançar e tirar de vez o uso de máscara”, conclui.

Esse passo não deverá tardar muito a acontecer, segundo Filipe Froes, coordenador do gabinete de Crise de Ordem dos Médicos. “Penso que temos de fazer um alívio das medidas de uma forma faseada e provavelmente essa situação da obrigatoriedade de uso de máscara nas aulas deve ser revista em breve e será normalizada, à semelhança do que já acontece noutras situações. É isso que eu espero”, indica.

“O alívio é dinâmico e nós estamos a assistir a uma diminuição do impacto da pandemia, com redução de todos os indicadores e portanto, é previsível que nas próximas semanas haja uma revisão de algumas medidas e na equiparação entre os diferentes contextos”, afirma sem adiantar uma data concreta.

Para o responsável, o facto de a máscara se manter nas escolas e não em discotecas e bares, por exemplo, “tem a ver com riscos de exposição, tipo de atividade e taxa de cobertura vacinal”.

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