Máscara em espaços fechados? Especialistas defendem continuidade da medida. Mas nas escolas há dúvidas

O Conselho de Ministros reúne-se esta quinta-feira, podendo estar em cima da mesa um eventual alívio de regras nomeadamente no que diz respeito ao uso de máscara em espaços fechados, como escolas.

O secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, admitiu ontem que a obrigatoriedade do uso da máscara em espaços interiores pode cair de forma geral até ao final do mês, mas irá manter-se nos lares, instituições de saúde e transportes públicos.

A Multinews contactou três especialistas em saúde pública para perceber o que pensam da continuidade da máscara nestes espaços e todos consideram que no geral deve manter-se, seguindo o “princípio da prudência”.

“O princípio da prudência e a série de regras que definimos com a introdução do indicador aponta para o uso de máscara a este nível para proteção individual. Além disso a letalidade nos mais idosos está a subir, o que aponta para a necessidade de vacinas de nova geração”, refere Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico.

Também Bernardo Gomes, professor na Faculdade de Medicina e no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), é da mesma opinião. “Tendo em conta o atual momento e o que conhecemos da infeção pelo Sars-CoV-2, é aconselhável continuar a investir no controlo da transmissão e isso passa pelo uso de máscara em espaços interiores”, afirma.

“O uso de máscara continua a ser uma medida ajustada à realidade epidemiológica portuguesa. O combate à pandemia faz-se com medidas complementares que permitem um melhor controlo da pandemia”, complementa Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP).

Máscara só em alguns espaços pode ser opção

Questionados sobre uma possível diferenciação da obrigatoriedade tendo em conta os espaços, privilegiando o seu uso em hospitais, lares ou transportes públicos, como já foi sugerido, os especialistas dizem que pode ser uma hipótese.

“Os locais onde estão concentradas pessoas vulneráveis (doentes crónicos e idosos) deverão ter sempre mais alguma medida de proteção desses cidadãos, sendo natural que unidades de saúde e instituições de apoio a idosos sejam os últimos locais onde essa obrigatoriedade seja levantada”, refere Tato Borges.

Segundo o médico de saúde pública, “os transportes públicos são locais onde se concentram e misturam pessoas de localidades diferentes, existindo um risco de disseminar o vírus numa área superior, sendo outro local que deve ser alvo de manutenção de medidas preventivas durante mais tempo”.

Também para Bernardo Gomes, “isso é uma hipótese à imagem do que decidiu Espanha: o foco em locais de maior densidade de pessoas assim como presença de populações vulneráveis. O problema é com espaços em que as máscaras serão retiradas e que não verão investimentos em ventilação e qualidade do ar interior”.

Uso nas escolas divide opiniões

Já quanto à mascara nas escolas, as opiniões dividem-se. “Curiosamente, a máscara nas escolas não produz grandes efeitos, pois as crianças e jovens estão em contacto fora das aulas e, durante as aulas, os contactos são muito prolongados, situação em que a máscara não evita a transmissão. Pessoalmente, sou a favor da eliminação das máscara nas aulas”, refere Henrique Oliveira.

Por outro lado, Bernardo Gomes defende que “as escolas são o exemplo de espaços onde a melhoria da qualidade do ar interior deveria ser prioritária como investimento futuro” e fala numa “falácia” que tem sido difundida: “a confusão entre espaços públicos de frequência obrigatória e espaços opcionais”, afirma referindo-se às discotecas onde não há essa obrigação. “Lá por temos exposições opcionais de risco, não deveremos contrapor como incongruência a redução de risco em locais obrigatórios”, acrescenta.

“A comparação com as discotecas é uma comparação desadequada. O que se devia discutir era a obrigatoriedade do uso de máscaras em todos os espaços fechados, não pedir para acabar com o seu uso nas escolas. A nossa atitude deveria sempre ser protetora da saúde”, corrobora Tato Borges.

O presidente da ANMSP “compreende que a utilização de máscara é um obstáculo à aprendizagem e à sociabilização” mas “considera que continua a ser uma medida de proteção das crianças que deverá ser levantada quando a situação epidemiológica for mais contida”.

“O uso de máscara pelas crianças é uma forma de evitar que elas apanhem o vírus, desenvolvam doença grave ou até venham a sofrer sequelas da sua infeção e acabem por transmitir a doença aos seus familiares, onde podem existir pessoas vulneráveis”, conclui.

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