Investigação denuncia milhares de alunos chineses infiltrados em universidades da UE. Pequim financia estudos em áreas consideradas críticas

Enquanto a Europa tem tomado sérias medidas para blindar setores como a energia, a defesa ou a indústria da eventual espionagem chinesa, áreas como o ensino ficaram ‘destapadas’ e estão a ser aproveitadas como fraqueza, permitindo que o regime de Pequim consiga infiltrar milhares de alunos em universidades europeias, que depois voltam para a China para serem recrutados e aplicarem tudo o que aprenderam.

Verifica-se, assinala o ABC, um crescimento do número de estudantes chineses em universidades por toda a Europa, e alguns escândalos vão surgindo e fazendo soar os alarmes para o que é a estratégia da China.

A Universidade de Darmstadt, na Alemanha, publicou em 2021 uma investigação que permite melhorar a tecnologia que monitoriza pessoas em movimento: a equipa era liderada por um alemão e composta por quatro investigadores chineses, da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (NUDT), que pertence ao exército chinês. Um dos chineses que participou no estudo é agora professor na NUDT e está a usar o conhecimento apreendido para melhorar as capacidades de vigilância do Partido Comunista Chinês e do seu aparelho.

Outro caso: o Centro Cultural de Direitos Humanos da Universidade VU de Amsterdão foi encerrado, depois de um comité independente ter apurado que o organismo tinha recebido mais de 300 mil euros da China para uma investigação cujos resultados ‘mascaravam’ o desrespeito pelos direitos humanos pelo regime de Pequim.

Estes e outros casos motivaram a Associação de Assuntos Internacionais, com sede em Praga a desenvolver um estudo, com o objetivo de alertar para o esquema da China disponibilizar dinheiro a instituições científicas na UE em troca de resultados de investigação, a serem aplicados em tecnologia civil e militar. “Os documentos chineses são claros sobre as áreas de interesse para o país: incluem inteligência artificial, tecnologias quânticas, circuitos integrados, investigação aeroespacial, investigação de novos materiais, neurociência e biotecnologia”, esclarece a autora do estudo, Ivana Karásková.

A responsável, destaca que é preocupante que a UE não tenha uma forma coerente e acordada para proteger a ciência e a investigação da espionagem chinesa. Na República Checa, os investigadores encontraram mais de 200 projetos de investigação com financiamento exclusivamente vindo da China.

Neste e em muitos outros casos, falamos de alunos ou agentes do Programa dos Mil Talentos, cujo objetivo é recrutar investigadores no estrangeiro, em áreas científicas específicas. Este programa prevê que os envolvidos recebam diretamente dinheiro, apoio e financiamento da Comissão Militar Central, a autoridade máxima das forças chinesas.

O estudo apurou também que 284 estudiosos austríacos estão a trabalhar em investigações financiadas a 100% pela China, enquanto na Eslováquia contam-se 18 investigações com financiamento total chinês. Os investigadores acreditam que esta seja uma realidade repetida em todos os quase todos os países europeus, em maior ou menor escala.

Os cientistas defendem que qualquer cooperação europeia com universidades chinesas deveria também ter associada uma avaliação global de riscos para a segurança nacional de cada país da UE. No início de 2022, a Comissão Europeia pareceu ‘avisar’ que estava alerta para o problema, e publicou um conjunto de ferramentas para começar a trabalhar com os vários países, em conjunto, para combater a interferência estrangeira no setor da investigação e inovação científica. Mas, até ao momento, ainda não há uma resposta acordada entre os vários Estados-membros da UE.

A investigação preliminar ‘China Science Investigation’ aponta ainda dados de estudos com financiamento chinês e com alunos da NUDT envolvidos, em vários países europeus: 1389 no Reino Unido , 349 na Alemanha, 288 na Holanda, 230 na Suécia, 175 em França e 149 em Espanha.

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