“Hoje mais do que nunca é necessária estabilidade”: Costa afasta queda do Governo e diz-se “surpreendido” por Pedro Nuno Santos admitir saber da indemnização a Alexandra Reis

António Costa falou hoje aos jornalistas sobre os vários casos e polémicas que envolvem o Executivo que lidera, afastando a ideia proposta por Ventura ao Presidente da República, de fazer cair o Governo e convidar Costa a formar nova equipa, sustentando que “hoje mais do que nunca é necessária estabilidade”.

Sobre o caso da indemnização de meio milhão de euros paga a Alexandra Reis aquando da sua saída da TAP, e questionado sobre se se deveriam verificar as mensagens de WhatsApp trocadas entre os envolvidos, Costa defendeu que “não há nada de novo a acrescentar”. “O Ministério das Finanças determinou inquérito da Inspeção-Geral de Finanças, que está agora a fazer o seu trabalho. No princípio de fevereiro terá o seu relatório [sobre o caso] terminado”, anunciou.

Ainda sobre o mesmo tema, Costa mostrou-se surpreso com a admissão, agora, por parte do ex-ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, de que afinal tinha tido conhecimento e aprovado a indemnização milionária a Alexandra Reis, que foi depois para a NAV e acabou como secretária de Estado do Tesouro, tendo sido demitida após o escândalo rebentar, em dezembro do ano passado. “Fiquei tão surpreendido como creio que próprio; no comunicado que vimos, ele próprio se surpreendeu de ter agora constatado que tinha sabido e dado aprovação [à indemnização]”, referiu o primeiro-ministro.

Perante a insistência sobre como é que o caso não foi comunicado ao Ministério das Finanças, Costa foi perentório: “Já todos sabemos que Finanças não sabia, é um ponto sobre o qual não vale a pena haver qualquer tipo de insistência. O Ministério das Infraestruturas já disse que não comunicou ao Ministério das Finanças, a TAP já disse que não comunicou ao Ministério das Finanças, presumindo que oi Ministério das Infraestruturas comunicaria, e o então ministro das Finanças, o professor João Leão, já veio publicamente dizer que desconhecia”, frisou António Costa.

António Costa falou ainda da polémica que envolve o Ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, relativa à derrapagem dos custos das obras no Hospital Militar de Belém, quando era ministro da Defesa, e sustentou que “dará todos os esclarecimentos na Assembleia da República”. “Não seria normal que um ministro mentisse sobre o que sabe ou não sabe. Se disse a verdade, acho que isso é de louvar”, sustentou.

“Mantenho a confiança nos membros do Governo que estão em funções”, declarou.

“A mensagem mais clara que portugueses deram nas eleições é que querem estabilidade”
António Costa, questionado sobre uma eventual demissão do Governo, com convite do Presidente da República para formar novo Executivo, afastou a ideia colocada ontem por André Ventura, do Chega.

“Faz agora um ano que os portugueses foram chamados a votar depois de uma crise politica provocada pelos vários partidos da oposição, com o chumbo do Orçamento do Estado para este ano. O pais perdeu quase meio ano até ter orçamento aprovado. A mensagem mais clara que portugueses deram nas [últimas] eleições legislativas é que querem estabilidade, querem um Governo que governe e se concentre na sua função. Nessa altura os portugueses desconheciam que estávamos há menos a um mês da guerra voltar à Europa e gerar esta onda de inflação. Se era necessário esta estabilidade há um ano, hoje mais do que nunca é necessária esta estabilidade”, considerou Costa.

“Neste momento, os sinais que me chegam do exterior é que os piores receios sobre o que podia acontecer à economia europeia estão a diminuir. O que é necessário para o País não são novas crises políticas, é não haver crises políticas nos próximos quatro anos”, sublinhou Costa, admitindo no entanto que “as pessoas não podem estar eufóricas, felizes e contentes num quadro tão exigente”

“Todos os compromissos que assumimos para o OE do ano passado, cumprimos todos.” referiu, num balanço da atividade do Governo em 2022. “Há incidentes de percurso, que têm de ser ultrapassados, problemas que têm de ser resolvidos, factos inesperados, fazer política é isso também. Não vejo necessidade de haver novo Governo. Tenho orgulho e poder dizer, que nos meus primeiros dois Governos, houve ministros estabeleceram novo máximo de duração nessas pastas”, considerou, exemplificando com os antigos ministros da Educação e da Justiça.

Perante a insistência dos jornalistas sobre as recentes sucessivas mudanças no seu Governo, o líder do executivo considerou que “ocorreram por motivos muito diversos”, desde questões de saúde “a dois problemas políticos graves” que motivaram as demissões dos ministros da Saúde, Marta Temido, e do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos.

“Houve também problemas mais recentes com alguns membros do Governo, Não relativamente a qualquer atividade que tenham praticado enquanto membros do Governo, mas por situações da sua vida anterior, ou até da vida de familiares seus”, observou.

“Lamento, lamento profundamente o sinal de menor foco e concentração do governo nas suas atividades. Creio que é uma fase que está ultrapassada. A estabilidade é um valor importante, não é um valor em sim, mas permite assegurar continuidade de políticas. se andarmos sempre a mudar membros do Governo, há uma descontinuidade, quem chega tem sempre de estudar tudo de novo, rever o que anterior decidiu. Temos aqui um fator de entorpecimento da atividade governativa, que os portugueses disseram que não querem”, apontou.

Costa voltou a afastar a ideia de que todos os membros já no Governo deveriam também de responder ao questionário de 36 perguntas do mecanismo de escrutínio prévio de governantes, dizendo que “já apresentaram todas as declarações publicas que tinham que apresentar, deram toda a informação” e que “esse escrutínio está feito”.

“O questionário é um instrumento para os ministros avaliarem os secretários de Estado que propõem ao primeiro-ministro e para o primeiro-ministro poder avaliar todos relativamente a um conjunto de situações que possam afetar o exercício de funções governativas”, assinalou o líder do executivo.

“Já apresentaram todas as declarações públicas que têm de apresentar quer à Assembleia da República quer ao Tribunal Constitucional, Já deram toda essa informação – uma informação que é acessível e eu até aparece nas páginas dos jornais”, referiu.

Costa protege Medina

Sobre as buscas da PJ na Câmara de Lisboa que envolvem suspeitas de corrupção em projetos urbanísticos na altura em que Medina era autarca, Costa protegeu o seu ministro das Finanças das perguntas, sobre as alegadas ligações do governante aos arguidos no caso e sobre um contrato, alegadamente assinado por Medina.

“Não conheço qualquer envolvimento do Ministro em buscas. Sei porque leio nos jornais que houve um conjunto de buscas à Câmara da Lisboa, vejo que a PGR fez um comunicado que havia 3 pessoas e três empresas arguidas, sei que o Ministro das Finanças não é arguido, nem sequer foi ouvido. E se for será, ninguém está acima da lei”, considerou Costa.

“Devemos deixar que as entidades judiciárias funcionem com normalidade”, apontou o primeiro-ministro, recordando que ele também foi arguido em processos judiciais que acabaram arquivados.

Questionado pelos jornalistas, sobre se temia que a investigação da PJ também o pudesse, eventualmente, visar, o primeiro-ministro afastou qualquer receio: “Fui presidente da Câmara de Lisboa durante oito anos. Entrei, estive e saí com a minha consciência absolutamente tranquila. Se há alguma investigação a fazer, que façam. Não temo rigorosamente nada”, apontou.

 

Ler Mais



loading...
Notícias relacionadas