Fumo do tabaco deixa ‘herança pesada’ que pode ter consequências três gerações depois, revela estudo

Fumar não traz apenas problemas de saúde imediatos mas ‘carrega’ uma herança para gerações futuras: as bisnetas de homens que fumaram quando eram meninos são mais propensas a ter excesso de gordura no corpo quando jovens, revela um estudo publicado na revista ‘Scientific Reports’. A descoberta – que os cientistas afirmaram ser uma das “primeiras demonstrações humanas dos efeitos transgeracionais de uma exposição ambiental ao longo de quatro gerações” – sugere que as exposições a fumo do tabaco podem ter consequências que permanecem nas famílias sem serem detetados em gerações inteiras.

“Se estas associações forem confirmadas em outros conjuntos de dados, este será um dos primeiros estudos em humanos com dados adequados para começar a analisar estas associações e começar agora a desvendar a origem de relações entre gerações potencialmente importantes”, frisou Jean Golding, epidemiologista da Universidade de Bristol, no Reino Unido.

A análise dos dados revelou que os filhos de pais que começaram a fumar antes dos 11 anos têm maior probabilidade de ter um índice de massa corporal (IMC) maior na adolescência, com aumento da circunferência média da cintura e massa gorda de corpo inteiro. Este, segundo os autores, é um exemplo raro de um sinal transgeracional não genético herdado por descendentes humanos, com muitas das evidências existentes dos efeitos de exposições ancestrais.

O fenómeno, aponta o estudo, estende-se por mais de uma geração, não apenas de pai para filho mas também de avô para neta e também de bisavô para bisneta. “Mostrámos que, se o avô paterno começou a fumar na pré-puberdade [com menos de 13 anos], em comparação com mais tarde na infância (13-16 anos), as suas netas apresentaram evidências de excesso de massa gorda em duas idades – 17 e 24 anos”, revelaram os investigadores. Um efeito semelhante foi observado mesmo quando as gerações intermédias não fumaram regularmente quando tinham menos de 13 anos, evidenciando um efeito transgeracional de quatro gerações.

“Antes da puberdade, a exposição de um menino a substâncias específicas pode ter um efeito sobre as gerações que o seguem”, disse Golding, observando que uma das conclusões importantes da descoberta são as implicações que isso tem para a nossa compreensão da saúde das pessoas hoje e como pode ser moldado por influências invisíveis.

“Uma das razões pelas quais as crianças ficam acima do peso pode não ter tanto a ver com a sua dieta e exercícios, mas com o estilo de vida dos seus antepassados ou a persistência de fatores associados ao longo dos anos”, revelou o estudo.

A equipa reconhece que necessita de mais pesquisas para entender o fenómeno e aponta que a sua própria análise tem várias limitações, resultado da falta de dados sobre a infância ou as circunstâncias dos pais, avós ou bisavós. No entanto, sublinharam, o estudo oferece evidências inéditas sobre efeitos transgeracionais.

“Ressalvamos que as associações indicadas estão relacionadas à obesidade; é geralmente reconhecido que a obesidade é um distúrbio complexo causado pela interação de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais”, concluíram os investigadores. “No entanto, antes que as hipóteses sejam geradas sobre os mecanismos pelos quais os efeitos que mostramos podem ter ocorrido, é importante procurar evidências em outros estudos.”

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