França em alerta com mais de 300 golfinhos mortos e mutilados a darem à costa em poucas semanas

A chamada estação do encalhe dos cetáceos – altura do ano em que é mais comum que estes animais acabem por dar a costa-, em França, esta a ficar marcada por um verdadeiro cenário de horror e grande preocupação das autoridades, bem como de grupos e associações de ativistas ambientais. É que em poucas semanas, entre o Natal e dia 15 de janeiro, já mais de 300 cetáceos, 90% dos quais golfinhos, foram encontrados nas zonas da costa do golfo da Biscaia.

Chegaram a ser mais de 20 de cada vez em poucos dias. Em Finistère mais de 27 casos foram identificados, outros 36 em Morbihan, 122 em Vendéé, 53 em Charente-Maritime e 19 em Gironde. Os números não param de aumentar, quase todos os dias.

Os cientistas do observatório Pelagis, da Universidade de La Rochelle, examinaram alguns dos animais mortos e autopsiaram -nos, notando que “a maioria apresentava sinais de terem sido capturados por equipamentos de pesca”. Os investigadores descrevem o atual excesso de mortalidade entre golfinhos como “intenso” e “particularmente antecipado”, já que os pico de casos destes animais que dão à costa geralmente ocorria em fevereiro.

Foi na semana passada que o caso ganhou contornos ainda mais macabros, deixando antever que o problema poderá ser bem pior. Num único dia, cinco golfinhos mortos foram encontrados numa praia em Lège-Cap-Ferret, e um sexto um pouco mais longe.
Todos os animais apresentavam sinais de mutilação. Não tinham a zona lombar cortada, normalmente de onde se retira a carne para consumo, mas estavam completamente esventrados no areal.

Uma vez que o golfinho-comum é uma espécie protegida em França, e na Europa, a lei condena qualquer forma de destruição da espécie, incluindo a captura, perseguição ou perturbação de exemplares, ainda que tolete “captura acidental em aparelhos e equipamentos de pesca”.

A causa permanece um mistério, mas a ONG Sea Shepherd France já tem uma ideia do que poderá levado a estes golfinhos mortos e mutilados: precisamente uma tentativa de os pescadores disfarçarem a captura destes animais nas redes de pesca e ocultarem os cadáveres.

A associação vai apresentar uma nova queixa num tribunal de Bordéus esta quarta-feira. Lamya Essemlali, presidente da Sea Sheperd France, garante estar convencida de que a mutilação de golfinhos corresponde a “uma tentativa fútil” de tentar afundar as carcaças dos animais, para apagar quaisquer provas de uma captura acidental.

Ainda que a lei seja menos rígida nos casos de captura ou morte acidental destes animais, os pescadores estão obrigados, por exemplo, a reportar todos os casos, incluindo os de colisão das embarcações com os cetáceos, sem qualquer exceção. No entanto, serão poucos os que o fazem, denuncia a ONG ao Le Monde.

“A lei prevê uma multa avultada para quem não reporte, mas, que eu saiba, nenhum pescador foi julgado ou multado por isso. Há um clima de completa impunidade entre eles. Nós é que estamos a ser perseguidos, por estarmos a expor golfinhos mortos em frente à Assembleia Nacional.

As queixas a serem apresentada pela associação será contra desconhecidos e contra o Estado francês, segundo revela a responsável, que apela a mais medidas do Governo para proteger os golfinhos.

Em 2020, o Estado francês já havia sido condenado em tribunal, no seguimento de uma queixa da Sea Sheperd, por falhar na proteção destes animais. Um tribunal de Paris considerou que o Estado “atrasou-se na implementação de ações concretas, perante a observação de episódios recorrentes (…) de excesso de mortalidade de cetáceos na costa atlântica, em particular no golgo da Biscaia”.

No mesmo ano, a Comissão Europeia abriu um processo de infração contra França, alegando que o país não estava a cumprir as suas obrigações perante uma espécie protegida.

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