Covid-19 não vai desaparecer. Então, como será a sua evolução? Especialistas explicam

Após mais de dois anos da pandemia de Covid-19, o mundo vive quase como se esta já não existisse. O seu fim foi previsto várias vezes mas nunca aconteceu. Será que vai voltar a acontecer? Será mais imprevisível do que qualquer epidemia anterior?

O Virologista Adolfo García Sastre alerta que “será extremamente inesperado que o vírus desapareça”. Por isso, que desenvolvimentos podemos esperar? Três especialistas ouvidos pelo ‘La Vanguardia’ analisam a sua evolução e o que ainda pode acontecer.

A mais longa epidemia? 

Pode parecer a muitos, mas a Covid-19 não é a mais longa pandemia jamais registada na humanidade. “Sem ir mais longe, há 40 anos que vivemos com VIH-SIDA, sem ter conseguido erradicar o vírus ou ter uma vacina”, recorda Antoni Trilla, especialista em Medicina Preventiva e Epidemiologia na Clínica Hospitalar e reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona, citado pelo jornal.

A mais previsível?

“Todas as pandemias são infrequentes e, portanto, imprevisíveis. Algo como isto pode não voltar a acontecer durante gerações. Ou voltar”, refere Garcia Sastre, diretor do Instituto para a Saúde Global e Patógenos Emergentes de Nova Iorque.

“Sim, no século passado, a covid é a que mais nos surpreendeu e chocou”, reconhece Trilla. “Chegou a um mundo que pensava ser seguro, confiante de que as pandemias poderiam ser controladas. A mortalidade das primeiras ondas, a saturação sanitária, a necessidade de adotar medidas tão drásticas, e o facto de que o vírus duraria tanto tempo, não eram de esperar”, acrescenta.

Agora, a pandemia ainda não acabou, o vírus continua a infetar, são conhecidas novas variantes ou subtipos. A OMS alertou que no Japão e nos EUA ainda havia quase um milhão de casos na semana de 18-24 de Julho, e meio milhão na Alemanha, França e Itália.

Isto apesar do facto de a maioria dos países ter reduzido consideravelmente os testes de diagnóstico. A OMS teme novas ondas e defende a continuação da vacinação. Até ao Outono, espera-se que as vacinas tenham sido adaptadas às últimas variantes do vírus.

O vírus está diferente (para melhor)

“Embora a pandemia não seja como antes, causa infeções, mas menos graves”, insiste García Sastre. Tomàs Pumarola, diretor de Microbiologia do hospital Vall d’Hebron de Barcelona, concorda.

O responsável assinala que “o vírus está a tornar-se mais transmissível e menos virulento; existe um abismo entre a gravidade dos casos e a mortalidade das primeiras ondas e as mais recentes”.

Prejudica menos os pulmões, quase não há admissões para pneumonia bilateral, a maioria das pessoas hospitalizadas são mais velhas ou de pior saúde, desestabilizadas pela infeção (e ainda mata, mas menos do que antes), e que precisam de ser mais protegidas.

“Há uma adaptação progressiva entre o vírus e nós. Estou otimista, acho que está a descer”, diz o microbiologista.

Ainda se esperam ondas?

Apesar da atual situação menos severa, não sabemos ao certo se haverá outro episódio grave, é improvável, mas não impossível. Essa incerteza mais a capacidade do vírus de infetar significa que ainda é temida”, diz García Sastre.

Pode haver mais ondas, dependendo do aparecimento de variantes mais distintas dos tipos de ómicron em circulação (BA.5, BA.4 e BA.2). Agora, se a circulação destas subvariantes se arrastar neste Verão, pode não haver uma grande onda de casos no Outono, prevê o virologista.

E pode aparecer uma variante diferente?

“Pode aparecer uma variante que escapa a toda a imunidade, mas é menos provável”, acredita Trilla. Não porque o vírus se torna mudo, mas porque tem mecanismos de ataque diferentes e temos mais barreiras do que em 2020.

Muitas pessoas contraíram a doença, há vacinas, antivirais; há mais imunidade e é mais sofisticado do que apenas o nível de anticorpos. Diz-se que as vacinas, estando com as variantes iniciais, já não funcionam e não é verdade, uma parte do vírus permanece”, aponta.

A Covid será sazonal?

Até agora, a dinâmica tem sido que uma variante emerge com mudanças suficientes para escapar à imunidade, ser mais transmissível, gerar uma onda de casos, com muitos infetados, vacinados ou não, quer já tenham tido covardia ou não, diz Trilla.

Como há menos casos graves, o quadro clínico melhora. O epidemiologista acrescenta que uma destas variantes do vírus irá provavelmente acabar por ficar. Os vírus respiratórios tendem a intensificar-se no tempo frio, com mais casos a ocorrer no Inverno. “A longo prazo, será certamente sazonal, de momento, estão a surgir variantes com capacidade suficiente para infectar em ondas”, aponta.

“É muito difícil não se tornar sazonal”, concorda García Sastre, “e como os vírus respiratórios se propagam melhor nas estações frias, quando há mais pessoas dentro de casa, sim, a transmissão irá provavelmente aumentar novamente no Outono, mas como eu disse, se as variantes dominantes não mudarem muito, pode não gerar uma grande onda. Embora veja muitas reinfeções, um mês depois de o ter tido, pode contraí-lo novamente”, sublinha.

O vírus pode mesmo desaparecer?

“Continuará, mais ou menos com frequência. Não há dúvidas sobre isso. É impossível erradicá-lo, seria extremamente inesperado que desaparecesse, que se extinguisse, porque é evidente que ainda somos suscetíveis, se estiver a causar contágio. Além disso, a situação da imunidade é diferente em diferentes regiões do mundo”, garante García Sastre.

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