Covid-19: Governo decide hoje medidas para conter 5.ª vaga. Especialistas pedem adiamento das aulas em janeiro, forte contenção nas deslocações e reforço da testagem

Depois de semanas de aumento casos de Covid-19 e de um dia em que Portugal registou mais 3.770 novos infetados, o Governo reúne-se hoje em Conselho de Ministros para decidir que medidas serão tomadas, de forma a travar este aumento de casos.

Na reunião do Infarmed, da passada sexta-feira, os peritos recomendaram o regresso de algumas regras básicas, mas não de medidas totalmente restritivas como no passado. O teletrabalho, a limitação da lotação dos espaços, o uso de máscaras e o controlo de fronteiras, foram algumas das sugestões feitas.

Da mesma forma, os partidos – ouvidos esta terça e quarta-feira pelo primeiro-ministro – concordaram que um novo estado de emergência, ou até novos confinamentos não se justificam nesta altura, adiantando até que será essa mesmo a posição do Governo.

Neste contexto a Multinews contactou dois especialistas em jeito de antecipação da reunião desta quinta-feira, no sentido de saber que medidas devem ser adotadas e o que pode ser feito para evitar o “período negro” que assolou Portugal em janeiro deste ano.

De forma geral, ambos concordam com as recomendações propostas no Infarmed, mas sugerem ainda outras, que podem passar pelo adiamento do calendário escolar no início do próximo ano, para que as aulas comecem mais tarde.

Propostas do Infarmed são “as mais adequadas”

Para Gustavo Tato Borges, da Associação Nacional de Médico de Saúde Pública (ANMSP), as sugestões do Infarmed são “as mais adequadas nesta fase. O uso de máscara já demonstrou o seu potencial protetor, o teletrabalho/desfasamento de horários permite que existam menos locais e momentos de maior proximidade entre as pessoas”, afirma.

Adicionalmente, “o controlo das fronteiras (com teste negativo para entrar em Portugal e novo teste de rastreio passado uma semana) é uma forma de monitorizar a possibilidade de importarmos novas variantes e de intervir rapidamente, minimizando o risco delas poderem disseminar-se”.

Da mesma opinião é Bernardo Gomes, professor na Faculdade de Medicina e no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP). “São medidas com um contributo válido no controlo de transmissão sem recorrer a mecanismos mais restritivos”, defende.

Teste e certificado em simultâneo só em locais “com maior risco de contágio”

No que diz respeito à possibilidade de exigência em simultâneo de um certificado Covid em conjunto com um teste negativo no acesso a locais, como discotecas –  avançada na terça-feira pelos partidos – Tato Borges considera que “é uma dupla segurança para quem frequenta esses espaços”.

Isto porque, explica, “temos a proteção da vacinação acrescida de um resultado laboratorial que dá maior certeza sobre o estado de infeção de cada um. Idealmente deveria ser exigido o resultado de um teste PCR mas o resultado de um teste rápido de antigénio feito por um profissional de saúde será também uma boa opção”.

Já para Bernardo Gomes “é necessário ponderar a questão logística e restringir aos locais com maior risco de contágio exigências à priori de testagem. Bares e discotecas são o maior exemplo, nomeadamente pela dificuldade inerente de uso de máscara no interior e compartimentação do ar partilhado (muita circulação)”.

Assim, importa “ter em atenção o aspeto logístico da aplicação de tal medida para que não seja algo que acrescente uma camada burocrática transversal a demasiadas atividades sem um ganho claro”, afirma.

“Período tampão” no início do ano com adiamento das aulas

Mas para além dessas regras já referidas, o professor do ISPUP fala ainda na “hipótese de criar um período “tampão” no início de 2022 e reprogramar o calendário escolar, para que as aulas começassem mais tarde em Janeiro, juntamente com fortes recomendações de contenção de eventos e deslocações”.

Também “o reforço da testagem e a melhoria da qualidade do ar interior dos espaços de trabalho e convívio, com a promoção de ventilação adequada e monitorização da sua qualidade” são outras medidas possíveis, complementa o médico da ANMSP.

Aquilo que não pode falhar, impreterivelmente, segundo o responsável, é “o uso obrigatório de máscara nos espaços interiores e nos eventos com grande aglomeração de pessoas”, que deve “entrar em vigor e ser fiscalizado de forma adequada”.

Já segundo Bernardo Gomes, importa que não falhe a “monitorização e reação atempada a mudanças de padrão: compreender que permanecendo atividades festivas de 24 a 31 de Dezembro, as duas primeiras quinzenas de Janeiro são críticas para quebra de cadeias de transmissão”.

Incerteza sobre período festivo

Questionados precisamente sobre o período festivo que se aproxima e a possibilidade de serem necessárias restrições adicionais, para além das já pensadas, ambos não têm certeza sobre o assunto.

“Vai depender da evolução epidemiológica. Ainda vamos a tempo de reverter a tendência crescente dos últimos tempos, de modo a evitar a tomada de medidas mais apertadas”, refere Tato Borges.

Ainda assim, ressalva, “o governo terá que acompanhar a evolução e reunir com os peritos para perceber se haverá necessidade de mais medidas. Espero que não, mas essa hipótese terá que estar em cima da mesa, caso os números continuem a subir”.

“Isso é algo a ser avaliado pelo Governo em função dos dados que tem e do equilíbrio social e económico”, acrescenta Bernardo Gomes. “Veria com bons olhos cuidado redobrado com eventos com número elevado de pessoas mas prefiro que as pessoas estejam ao ar livre do que dentro de casa”, sublinha. 

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