China: Grupo de amigas participou numa vigília em Pequim e, uma por uma, desapareceram. Não são vistas há mais de um mês

“Enquanto gravo este vídeo, quatro das minhas amigas já foram levadas. Confiei a alguns amigos meus a divulgação pública destas imagens depois de eu também desaparecer. Por outras palavras, quando estiveres e ver este vídeo, eu já fui levada pela polícia a algum tempo”. O apelo arrepiante, feito em vídeo, surge na voz de uma jovem chinesa recém-licenciada, e que trabalhava numa editora. É uma das oito pessoas, principalmente mulheres jovens, e do mesmo círculo social, que desapareceram depois de terem participado num protesto pacífico em Pequim, a 27 de novembro.

O protesto foi um dos que surgiu em várias cidades chinesas, na onda de descontentamento e revolta contra as medidas ‘zero Covid’, entretanto levantadas.

Das oito detidas, duas já terão sido libertadas, confirmou a CNN, que no entanto não conseguiu apurar o paradeiro das outras seis jovens, incluindo grupo de cinco amigas ‘desaparecidas’ que uma delas denunciou no vídeo, que se tornou viral.

Duas das mulheres detidas, incluindo a jovem que fez o vídeo, uma editora, foram acusadas de “causarem distúrbios e problemas”, o que poderá significar que deverão ser julgadas, já que nenhuma foi libertada ou sujeita a fiança.

As autoridades recusam comentar os detidos em protestos, em linha com a opacidade característica dos sistemas de segurança e judicial do país, e não há confirmação pública destas ou de outras detenções em ligação com as manifestações.

As cinco amigas que desapareceram e que se encontram detidas, terão sido presas de forma discreta e em segredo pela polícia. Tudo aconteceu após uma vigília pelas 10 vítimas de um incêndio, cujo combate gerou polémica, com alguma população a acusar os bombeiros e serviços e emergência de se terem atrasado no socorro devido às regras e medidas ‘zero Covid’.

Muitos dos que se concentraram nas margens no ria Liangma, em Pequim, mostravam folhas de papel brancas, que se tornaram um símbolo da repressão e da censura do governo chinês a qualquer protesto ou manifestação da população.

As amigas marcaram presença. Para além da editora, contava-se uma repórter e uma jornalista, uma professora e uma escritora.
Algumas do círculo de amigas terão saído do local antes do fim da vigília, para irem buscar comida antes de regressarem a casa.

Nos dias seguintes é que o processo que lhe mudou as vidas veio a acontecer. As autoridades utilizaram informações das redes telefónicas e dos telemóveis para identificarem os que participaram nos protestos e chamaram-nos para interrogatório.

Membros do grupo de amigas estavam entre os que foram levados e viram os telemóveis e aparelhos eletrónicos confiscados pela polícia.

Tudo parecia calmo depois, com a maioria a ser libertada. Mas, a partir de 18 de dezembro, as quatro amigas e o namorado de uma delas foram sendo progressivamente capturados pelas autoridades.

Com um sentimento de “terror”, a editora gravou o vídeo e, cinco dias depois, foi também ela detida e, outros dias depois, a amiga repórter foi também presa.

“Na vigília, nos seguimos as regras, não causámos nenhum conflito com a polícia. Porque é que isto tem de custar as vidas a jovens? Porque é que podemos ser levados tão arbitrariamente? Não nos deixem desaparecer deste mundo sem explicação. Não deixem que sejamos presas e julgadas de forma arbitrária”, pediu a jovem.

Para além da repressão aos protestos e manifestações, a polícia chinesa tem também recorrentemente atacado grupos feministas, a que corresponderia o grupo de amigas detido.

Segundo advogados ouvidos, o facto de só algumas do grupo terem sido libertadas, e nenhuma ter sido sujeita a fiança, indica que vão mesmo ser julgadas e, ao que tudo indica, condenadas pela participação na vigília de homenagem às vítimas do incêndio em Urumqi.

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