Casos de cancro da mama disparam 40% desde o início do ano

O número de casos de cancro da mama que foram diagnosticados no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, aumentou 40% desde janeiro de 2021. O alerta foi dado pelo oncologista Luís Costa, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador principal do Instituto de Medicina Molecular.

Em entrevista ao jornal ‘Expresso’, o responsável começou por referir que “quando olhamos para a estatística de 2020 face a 2019, vemos que estamos a receber mais doentes com cancro metastatizado”, ou seja, com um nível de gravidade maior.

“Não acho que tenha sido por um ano de pandemia que a doença avançou logo — porque essa onda está por chegar —, mas porque alguns doentes só recorreram aos médicos já com sintomas importantes ou sinais de alerta, que não foram encontrados porque não tiveram consultas”, afirmou adiantando que “no Hospital de Santa Maria já recebemos este ano mais 40% de cancros da mama metastáticos”.

O especialista explicou que este aumento deve-se ao facto de que “muitas senhoras só recorreram ao médico quando o cancro já estava avançado e com sintomas”, referiu sublinhando que “o atraso no diagnóstico precoce vai-se refletir nos próximos três a cinco anos”.

“Já tínhamos dificuldade de cobertura nos programas de rastreio de base populacional; estamos agora num esforço de recuperação, mas não vamos conseguir aumentar além do que conseguíamos fazer antes da pandemia”, reiterou, citado pelo ‘Expresso’.

Questionado sobre se a subida deste tipo de cancro mais grave, metastizado, terá um impacto no aumento da mortalidade, Luís Costa não tem dúvidas. “É óbvio, e também num maior número de consultas, maior gasto com medicamentos, mais apoio dos cuidados paliativos e por aí fora. Temos de estar preparados”, ressalvou.

“A Europa tem 2,2 milhões de mortes por cancro por ano, Portugal cerca de 30 a 40 mil. Não é uma pandemia, no termo técnico, mas é um fogo lento que está a grassar, o aumento da incidência. Mesmo que estejamos a aumentar a taxa de cura em alguns cancros, a capacidade de resposta está sempre em questão”, disse o especialista ao mesmo jornal.

O responsável disse ainda que “o maior erro” dos serviços oncológicos neste período “foi a comunicação”, ou falta dela. “Havia uma pandemia, com períodos extremamente difíceis que era preciso ter na ordem do dia, até para fazer alguma pressão política para que se tomassem as medidas necessárias”, afirmou.

“Mas não houve contrabalanço: faltou literacia em Saúde para dizer às pessoas que, se tivessem queixas, deviam ir ao hospital — ficaram em casa a morrer de enfarte ou AVC —, não fugirem das consultas, porque houve doentes que fugiram e outros que não fizeram os exames pedidos”, acrescentou ainda Luís Costa.

Quando questionado se “houve quem quisesse ir ao médico e tenha encontrado uma porta fechada”, o médico confirma que sim. “É verdade, foi o segundo maior erro. Deveria ter havido — e cheguei a sugeri-lo a responsáveis — pessoas concentradas em resolver os problemas de saúde graves não covid, como as doenças cardiovasculares e oncológicas, as causas de morte principais”.

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