Calor extremo põe as cidades à prova: “Sistemas que consideramos básicos (água, luz ou comunicações) podem deixar de funcionar”, alerta especialista

O calor extremo está a pôr à prova as cidades. O exemplo mais claro este Verão é no Reino Unido, onde a histórica onda de calor esticou as vias férreas e obrigou ao cancelamento dos voos no Aeroporto de Luton (Londres) porque a pista tinha sido deformada pelas altas temperaturas, escreve o ‘ABC’.

O planeamento urbano, infra-estruturas e materiais foram concebidos para resistir a condições amenas, mas mais do que isso não. Acima dos 35 graus, o fornecimento de energia nas cidades torna-se mais difícil. A 40 graus, os caminhos-de-ferro expandem-se, e a 45 graus ou mais, o asfalto pode tornar-se deformado e traiçoeiro.

Aos 47 graus, alguns voos podem mesmo ser cancelados, impossibilitados de descolar. E o limite para transformadores de subestações elétricas é ligeiramente superior a 50 graus.

Os transformadores elétricos podem suportar temperaturas ambientes superiores a 50 graus e quase 80 graus no interior. Algo que parece improvável de ser alcançado. “Os verdadeiros perigos são ao nível do consumo, porque se gera um pico muito elevado de procura de eletricidade e talvez não se consiga cobri-lo, isso dá problemas de serviço”, refere José Luis Domínguez, diretor do grupo de sistemas elétricos do Instituto Catalão de Investigação Energética (IREC), ao ABC.

A entidade participou no programa Resccue da Comissão Europeia, que procurou saber se as cidades estão preparadas para o clima do futuro. Não existe uma temperatura exata a que uma cidade “desabaria” – depende de muitos fatores – mas há preocupações sobre um efeito de cascata.

Queda dos sistemas básicos

Num caso extremo (a rede é concebida para poder funcionar mesmo que vários elementos falhem), “se o sistema elétrico falhar, o sistema de água também falha, porque as bombas colapsam”, afirma Domínguez.

Além disso, as telecomunicações funcionam pior com o calor. As antenas têm de fazer um esforço maior e, embora tenham baterias independentes, se houver uma falha persistente no fornecimento de energia, os problemas de comunicação podem começar dentro de horas. Muitos dos sistemas que consideramos básicos podem deixar de funcionar”, disse. “Por isso temos de fazer melhores previsões e proteger o sistema”, alertou.

Problemas com voos

Também poderá ter problemas se estiver a planear apanhar um avião. É aos 47 graus que o ar perde densidade. Os aviões vêem a sua capacidade de propulsão reduzida e precisam de uma “corrida” mais longa para atingir a potência.

Um relatório de 2013 sobre as necessidades de adaptação dos transportes reconheceu que, em eventos de calor extremo, “restrições operacionais poderiam ser aplicadas a aeronaves mais pesadas devido à escassez de comprimento da pista”.

Isto aconteceu em Phoenix (EUA) em 2017, onde dezenas de voos foram cancelados devido a uma onda de calor que fez subir os termómetros a 49 graus Celsius. “Seria aconselhável avaliar o aumento do comprimento da pista”, recomendava o relatório.

“Neste momento as infra-estruturas não estão preparadas”, disse Vicent Esteban Chapapría, presidente da Associação de Engenheiros Civis, ao ABC. Face a acontecimentos extremos, precisamos de nos adaptar. E ainda há muito a rever.

Atenção nas estradas

A cautela também deve ser exercida nas estradas. Os pavimentos feitos de materiais asfálticos comportam-se muito pior no calor porque amolecem em comparação com a pedra ou o betão.

A alternativa possível do futuro é procurada em fibra de vidro. A boa notícia é que o calor extremo não parece ser um problema, à priori, para os automóveis. O líquido refrigerante funciona a cerca de 90 graus. Desde que não exceda os 105 ou 110 graus, não há problema. Contudo, tenha cuidado para não tocar na chapa metálica. Uma carroçaria escura pode atingir os 80 graus.

Superfícies urbanas a 50 graus ou mais

E se ficar em casa, pode agora estar a perguntar-se. Porque é que em dias quentes e ensolarados, “as superfícies urbanas podem ser até 50 graus mais quentes do que o ar”, Erica Martínez, investigadora do ISGlobal, um centro promovido pela La Caixa, explica ao ABC.

O problema reside no facto de os materiais utilizados na construção absorverem e refletirem a radiação solar; eles armazenam e libertam calor. Acabam por criar o efeito “ilha do calor”.

O importante é manter a temperatura corporal a cerca de 37 graus Celsius. “Uma pessoa pode suportar um aumento de até três graus sem consequências para a saúde, desde que seja saudável”, explica Martínez.

Mas se existe um problema de fornecimento de eletricidade ou pobreza energética, é necessário reduzir o calor nas cidades: telhados brancos, áreas verdes, pavimentos frios ou edifícios isolados já estão entre as propostas para evitar atingir o limite. Algumas cidades começaram mesmo a criar “abrigos climáticos” para fazer face a episódios de calor extremo.

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