Varíola dos macacos só captou atenção mundial depois de se tornar doença “do Norte”, acusa OMS

Há décadas que a varíola dos macacos tem afetado populações nos países de África, mas só quando se bateu à porta das sociedades mais industrializadas e das economias mais poderosas é que o mundo acordou para o vírus.

A acusação é feita por Ibrahima Socé Fall, vice-Diretor-Geral para Emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Temos trabalho sobre a varíola dos macacos em África há várias décadas, mas ninguém se interessou”, atirou o responsável, acrescentando que só quando o vírus começou a circular no hemisfério Norte é que a comunidade internacional decidiu reagir.

“Foi o mesmo com o vírus Zika e temos de acabar com esta discriminação”, frisa Fall, que sentencia que “o mundo tem de estar envolvido na proteção destas populações, independentemente da sua nacionalidade, cor da pele, ou religião”.

“Agora que mais de 70 países em todo o mundo são afetados, todos estão a tornar-se ativos”, critica.

De acordo com dados da OMS, a varíola dos macacos tem circulado há décadas, de forma endémica, em 13 países do continente africano: Camarões, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Gabão, Gana, Costa do Marfim, Libéria, Nigéria, Congo, Serra Leoa, Sudão do Sul e Benim.

Contudo, a comunidade internacional não prestou atenção aos surtos de infeção nesses países, situação que se alterou em maio, quando começaram a ser detetados os primeiros casos nos países mais desenvolvidos, me particular no Reino Unido, que identificou a primeira infeção na Europa.

“É importante, e temo vindo a trabalhar nisso, acelerar os planos de investigação e desenvolvimento sobre a varíola dos macacos, para que os países africanos mais afetados possam ter os recursos para prevenirem e combaterem a varíola dos macacos”, sustenta Fall.

E o dirigente da OMS deixa um alerta aos líderes dos países mais ricos: “Se sós tratarmos o que se está a passar na Europa e na América, estaremos só a tratar os sintomas da varíola dos macacos, mas não a verdadeira doença”, e apela a uma mobilização global efetiva para fazer frente ao surto e impedir que adquira dimensões mais preocupantes.

Por sua vez, Madhu Pai, especialista em epidemiologia e Saúde Pública, da Universidade McGill, no Canadá, vai mais longe nas críticas. Citando um artigo editorial publicado na revista científica ‘The Lancet’, escreve no Twitter que “como o Ébola e o Zika, a varíola dos macacos só atraiu a atenção global quanto atingiu países ricos com populações predominantemente brancas”. Fall partilhou a mensagem na sua página na mesma rede social.

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