Vacinas para crianças a partir dos 5 anos? Sim, se cobertura vacinal atual não for eficaz, diz Gouveia e Melo

As vacinas para crianças dos cinco aos 11 anos estão cada vez mais perto de ser aprovadas, mas o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que liderou a task force para a vacinação em Portugal, acredita que esta faixa etária só será inoculada se a taxa de cobertura vacinal atual não for suficiente para conter a pandemia.

“Julgo que só se se chegar à conclusão que os 85% ou 86% de vacinação completa não forem suficientes”, disse hoje em declarações aos jornalistas à saída do almoço/debate “O processo de vacinação contra o Covid-19 em Portugal”, organizado pelo International Club of Portugal.

Uma comunicação “pragmática e pensada”, que transmitiu urgência e “espírito de combate” ao momento pandémico, foi o elemento principal do sucesso da vacinação em Portugal, constatou Gouveia e Melo.

O militar, adjunto para o Planeamento e Coordenação do Estado-Maior General das Forças Armadas, explicou, com detalhe, as operações da equipa responsável pela vacinação contra a covid-19 que liderou entre 3 de fevereiro e 28 de setembro.

“A comunicação foi a parte mais importante”, realçou, perante uma centena de pessoas, recordando os reparos acerca de aparecer vestido de camuflado. “Queriam que aparecesse de lacinho cor-de-rosa ou com uma gravatinha? Eu sou militar”, ironizou, assumindo “a retórica de guerra”.

Liderança consentida e organização – acrescentou – são os outros dois elementos que compõem o trio de “sucesso” do processo de vacinação em Portugal.

A primeira – explanou – foi a que permitiu que instituições como a saúde e o poder local, com “valores e hábitos”, tenham consentido a liderança aos militares, percebendo a sua utilidade.

“Planos simples para execução rápida” é o que os militares “sabem fazer bem”, assinala.

Gouveia e Melo recordou que encontrou um Serviço Nacional de Saúde (SNS) com “muitas fragilidades”.

O SNS “é muito partido e desestruturado”, bem como “regionalizado”, o que obrigou a criar “um sistema nervoso central”, explicou, acreditando que o sistema aprendeu com a experiência.

Havia que definir objetivos: “Defender as pessoas, que estavam em risco de vida” e dar resiliência ao Estado, nomeadamente ao SNS.

“Estávamos a vacinar em ‘slow motion’ [câmara lenta] e passámos a ‘fast forward’ [avanço rápido]”, descreveu, pedindo desculpas pelos anglicismos.

“Conseguimos fazer uma coisa bastante bem feita”, regozijou-se, rejeitando a perfeição, porque essa “só deus”.

Contando que “a imprensa estrangeira” tem andado a perguntar-lhe sobre “o truque” português, o vice-almirante respondeu: “Nunca gostei, enquanto português, que nos ajoelhássemos perante os outros povos. (…) Não temos de ter vergonha, nem orgulho excessivo.”

Portugal tem capacidades e “um dos truques foi a população portuguesa” e a “cultura pró-vacinas”, realça.

Segundo Gouveia e Melo, foco, capacidade de trabalhar na incerteza, disciplina, responsabilização e mobilização foram algumas das mais-valias que os militares trouxeram à coordenação da equipa que liderou o processo de vacinação.

O vice-almirante recordou o episódio em que um grupo de negacionistas o esperava com insultos, a porta de um centro de vacinação, e lhe sugeriram que entrasse pela porta dos fundos ou esperasse pela polícia. “Eu vou passar como um navio, com a sua proa, a empurrar toda a gente”, retorquiu, arrancando palmas à centena de pessoas na sala.

“Todos os malucos que acham que o vírus não faz mal” são também “inimigos”, apontou, sublinhando que é preciso “retirar margem de manobra aos negacionistas”.

“Serão todos forçadamente vacinados – ou pelo vírus ou pela vacina. Se quiserem esperar, façam favor”, disse.

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