Vacinação de crianças: “O que mudou numa semana?”, questionam especialistas

A Direção Geral de Saúde aprovou a administração da vacina contra a covid-19 para todas as crianças dos 12 aos 15 anos, após 11 dias de a ter recomendado apenas a crianças com problemas de saúde. O que mudou?

O presidente da Comissão de Saúde Materna, da Criança e do Adolescente, Gonçalo Cordeiro Ferreira disse ao jornal Público, sque este rumo “estava escrito nas estrelas, sabia-se que ia acontecer. É uma decisão política que tem uma pincelada técnica.”
O pediatra defende a vacinação universal e diz que a DGS devia ter sido anunciada “mais cedo”.

“Andamos a adiar e isto veio criar reservas nos pais. Portugal é um país muito amigo das vacinas e este sururu, este ruído, suscitou dúvidas. Acho que este processo foi lamentável, foi uma espécie de dança infeliz. O problema é que há uma vítima: a credibilidade das vacinas”, sublinha ao jornal: “O que mudou numa semana?”, questiona.

O presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos disse ao mesmo jornal que gostava de ter acesso aos dados e aos “fundamentos técnicos” do último parecer da DGS “em termos de risco-benefício”. “Não basta falar-se da segurança da vacina. Não basta que a vacina não seja perigosa, é necessário também que seja útil”, diz Jorge Amil Dias.

Por seu lado, ouvido pelo jornal Expresso, Paulo Paixão, virologista e professor na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova, diz também desconhecer a existência de “dados novos”.

“Como médico, gostaria de saber quais foram exatamente os argumentos [utilizados pela DGS para justificar a decisão anunciada esta terça] e o que mudou em relação à semana passada”, disse ao jornal, acrescentando que gostava de “perceber o que justificou esta decisão e conhecer os dados novos que fundamentam esta mudança de opinião”.

Pedro Simas, virologista e investigador do Instituto de Medicina Molecular, também revelou ao Expresso ter as mesmas dúvidas. “As crianças não são um grupo de risco, a não ser as que têm comorbilidades”, explica. Nalguns países, explicou ainda ao mesmo jornal, “há dificuldades em chegar a uma percentagem de vacinação completa alta, apelando-se, por isso, à vacinação das camadas mais jovens.” Mas não é isso que está a acontecer em Portugal. “Temos mais de 70% da população vacinada com a primeira dose e mais de 60% com a vacinação completa.”

“Não vejo inconveniente em vacinar mas não também não considero que haja uma grande urgência em fazê-lo. Até porque se coloca a questão de não haver vacinas para o resto do mundo”, conclui.

Graça Freitas mencionou dois estudos, um norte-americano e outro europeu, que concluíram que os episódios de miocardite e pericardite na sequência das vacinas são extremamente raros. “Nos mais de 15 milhões de adolescentes vacinados nos EUA e na União Europeia os episódios de reações adversas a nível cardíacos são extremamente raros”, começou por explicar.

“O CDC dos Estados Unidos publicou um reporte a 30 de julho sobre vacinação de jovens entre 12 e 15 anos. Uma semana depois, a União Europeia publicou o seu reporte e deu sinal de que não existiam reações adversas. A decisão de hoje [terça-feira] é técnica e vem na sequência desses dados”, adiantou.

E, segundo a responsável, a decisão de hoje é diferente da decisão do dia 30 porque “com esses dois factos que surgiram nos últimos dias” a DGS decidiu abrir a vacinação aos adolescentes de forma universal, sem precisarem de padecer de condições de risco ou obter recomendação médica prévia.

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