Tomada de posse de Biden: Tornar a América normal outra vez!

Ana Isabel Xavier, Professora Associada em Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e Subdiretora do OBSERVARE – Observatório de Relações Exteriores, escreve sobre os desafios da Administração Biden sob a pesada herança política de Trump.

 

Na véspera de Joe Biden ser empossado 46.º Presidente dos EUA, já estava montado em Washington um perímetro securitário de 25 000 militares da Guarda Nacional sem precedentes que ilustra bem a primeira grande prioridade da nova administração que se antecipava desde, pelo menos, a noite de 3 de novembro: apaziguar e reconciliar a sociedade norte-americana! A escolha de Kamala Harris para Vice-Presidente, com origem indiana e afroamericana, e forte experiência na área judicial e de segurança interna, é tudo menos casuística. A herança é pesada e agravada pelo combate à pandemia, a recuperação económica e a reconciliação com os aliados.

Na política externa, o futuro Presidente dos Estados Unidos tem afirmado que “A América está de volta” e que quer restaurar o lugar dos EUA no mundo, rompendo com uma política externa nacionalista e de recusa do multilateralismo que vigorou nos anos Trump. Duas prioridades serão expectáveis nesta área – o regresso ao acordo de Paris e à liderança climática; e o restabelecimento da confiança nas relações transatlânticas. Ao leme da tentativa de concerto da liderança moral e global americana estará o diplomata e agora Secretário de Estado Antony Blinken, que serviu as administrações Clinton e Obama na área da segurança nacional.

Por sua vez, a professora e diplomata Wendy R. Sherman será a número 2 da diplomacia americana, sendo público o seu empenhamento em torno do acordo nuclear iraniano durante o segundo mandato Obama. Foi assessora diplomática de Clinton e, a partir de hoje, será a primeira mulher subsecretária de Estado. Biden sempre defendeu abertura para negociar com o Irão por meio da diplomacia e entrará novamente no acordo, mas apenas se o Irão retornar primeiro ao cumprimento das restrições do acordo com o seu programa nuclear. As grandes dúvidas em termos de política externa serão com a Rússia, a Coreia do Norte e Israel.

Há, no entanto, três áreas de política externa em que não se esperam alterações estruturais à condução diplomática dos últimos anos. Antes da Administração Trump, já a Administração Obama, na qual Biden foi vice-presidente, tinha bem assente três grandes pilares.

  1. Afastamento estratégico do Atlântico e a exigência de partilha de custos com os Aliados

Em 2014, numa Cimeira NATO no País de Gales, Barack Obama lançou um desafio a 10 anos aos aliados: até 2024, todos deveriam ser capazes de alocar 2% do PIB em investimento de defesa, sob pena de os EUA deixarem der ser o principal provedor da segurança transatlântica. No primeiro discurso do Estado da União de Donald Trump, intitulado “América forte, segura e orgulhosa”, o mais tweetado da história com 4,5 milhões de mensagens, a relação transatlântica e o multilateralismo estiveram totalmente ausentes do seu discurso de praticamente uma hora e meia. Os outros elefantes na sala eram, na altura, as investigações em curso sobre a Rússia e alegada ingerência de Moscovo nas eleições americanas e o Acordo de Paris. Esta tendência foi ainda mais reforçada no segundo e terceiro discursos do Estado da União, mantendo-se a tónica de política externa reduzida à China, Médio Oriente, Afeganistão e Venezuela.

De facto, ao longo dos últimos 4 anos, raramente Trump disse algo de positivo sobre a aliança militar tendo sido recorrentes os comícios em que acusou os aliados de quererem a proteção americana contra a Rússia, mas manterem a Rússia como a principal fonte de petróleo e gás natural da Europa. Mesmo antes de assumir o cargo, ou seja, durante a campanha de 2016, descreveu a NATO como uma relíquia da guerra fria por ter sido projetada há muitos, muitos anos e que tem de ser reinventada para ultrapassar a sua obsolescência. Meses depois declarava que a NATO já não era obsoleta porque até já lutava contra o terrorismo, mas do menosprezo da aliança atlântica rapidamente se passou para um novo braço de ferro: os orçamentos de defesa em geral e a Alemanha em particular. Foi, aliás, em junho de 2020 que o Presidente dos EUA levou avante a acusação do Governo alemão de agir de forma “delinquente” por não contribuir o suficiente para a Aliança Atlântica e de tratar “mal” os Estados Unidos em assuntos comerciais, retraindo militarmente do território.

 

  1. Retraimento estratégico do Médio Oriente

Barack Obama foi oficialmente o Presidente que afirmou que “os filhos da nação deveriam vir jantar a casa”, numa alusão óbvia à necessária reorganização operacional das intervenções americanas, preterindo as boots on the ground à necessária tecnologização e robotização generalizada para intelligence gathering e ataques cirúrgicos.

Por sua vez, na primeira viagem ao exterior como Presidente, em Riad, na Arábia Saudita, Donald Trump prometeu o fim das intervenções idealistas, ordenou a retirada das tropas americanas da Síria para mais de metade e começou a reduzir o número de soldados no Afeganistão depois de fechar um acordo com os Taliban. Trump sempre proclamou o alvorecer de um novo Médio Oriente ao normalizar as relações entre Israel e dois dos aliados mais próximos de Washington no Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein.

 

  1. Relançamento do pivot Ásia-Pacífico e disputa com a China pela hegemonia ocidental

Há quem diga nos bastidores da equipa de transição que Biden não vai poder fugir do inevitável: a sua Administração vai ser marcada pela abordagem que assumir em relação à China entre a abertura ao diálogo e a assertividade agressiva. Mas já Barack Obama visitou muito mais a Ásia do que a Europa e Biden, se quiser disputar a hegemonia internacional com a China, terá necessariamente de recentrar grande parte da política externa dos próximos 4 anos nas relações com Pequim, na região da Ásia-Pacífico e no 5G.

Nos anos Trump, Washington e Pequim impuseram tarifas sobre milhares de bens, e fizeram da disseminação global do coronavírus originado alegadamente em Wuhan para deixar as relações bilaterais no nível mais baixo de sempre. O Presidente não hesitou em sancionar altos funcionários por abusos de direitos humanos, procurou proibir as empresas chinesas de tecnologia de operar nos EUA (Tik tok, Huawei), opôs-se às operações de influência chinesa e aumentou a consciência global sobre a ameaça representada pela tecnologia de rápido desenvolvimento da China, especialmente nas comunicações móveis de próxima geração. Trump lançou ainda as bases para um plano ambicioso e drástico de reforçar em até 500 novos navios a Marinha dos EUA para conter o aumento da ameaça militar da China.

 

Na política interna e, pela primeira vez, um Presidente eleito vai transformar um cargo de consultoria num cargo executivo, elevando a ciência e a verdade do covid-19 e das alterações climáticas para a constituição de um bureau liderado pelo reputado matemático, economista e biólogo Eric Lander.

Não tenhamos ilusões: à espera de Biden e Harris estão desafios incalculáveis e difíceis de sanar no Inauguration Day. Os primeiros 100 dias de uma nova Administração servem sempre de barómetro e ditam o rumo dos próximos 4 anos. Com Biden não será diferente, mas com múltiplas agravantes, incluindo a despedida do antecessor que exigiu para Maryland guarda de honra, bandas militares, tapete vermelho e uma salva de 21 canhões. Nos EUA, como no Mundo, o que se espera a partir de hoje é que os EUA voltem “apenas” a ser normais outra vez…





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