Suspeita que uma amiga ou familiar é vítima de violência? Saiba como ajudar (e o que nunca deve fazer)

No dia em que se assinala o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres importa saber como se deve agir (e o que jamais se deve fazer) quando sabemos ou suspeitamos que uma amiga, familiar, vizinha ou colega de trabalho possa estar a viver uma situação de violência doméstica.

O primeiro ponto a assinalar é que os cenários de violência não se traçam somente de marcas físicas. Há sinais que podem indicar que a mulher é vítima de maus tratos psicológicos e essa forma de violência não pode ser subestimada nem vista como um “mal menor.”

Sabia que ações como a devassa da vida privada através de imagens, conversas telefónicas, emails, revelar segredos e factos privados, violação de correspondência ou de telecomunicações são considerados atos de violência doméstica? Muitas vezes estes atos cometidos por parte dos companheiros ou companheiras ainda não são vistos pela própria mulher e pela sociedade civil como sendo uma forma de violência.

E claro, existem as formas de violência mais evidentes para todos, como os maus tratos físicos e psíquicos, a ameaça, coação, injúrias, difamação e crimes sexuais, podendo num âmbito mais lato haver ainda os crimes de subtração de menor, violação da obrigação de alimento, homicídio tentado ou consumado, dano, furto e roubo.

Se suspeita que uma amiga ou familiar possa estar a ser vítima de violência, pode ter um papel fundamental na vida dessa pessoa. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), em resposta à Multinews, considera que “a ajuda inicial de um amigo ou amiga ou de um familiar pode ser crucial para que a vítima de violência doméstica fale e peça ajuda para tentar sair da situação de violência em que vive e com que tem de lidar sozinha”. E esta ajuda pode ser o início do fim da situação de violência.

Observe o comportamento da sua amiga/familiar sozinha e em contexto de casal

De acordo com a APAV, estes são os comportamentos a que devemos prestar atenção sobre o estado da possível vítima:

  • Anormalmente bastante nervosa ou deprimida;
  • Cada vez mais isolada dos amigos e familiares;
  • Muito ansiosa sobre a opinião ou comportamentos do seu/sua namorado/a ou companheiro/a;
  • Ter marcas não justificadas e mal explicadas, como por exemplo nódoas negras, cortes ou queimaduras;

De resto, repare no comportamento do companheiro/a da sua amiga:

  • Desvaloriza e humilha-a à sua frente e de outras pessoas;
  • Está sempre a dar ordens à sua amiga e decide tudo de forma autoritária;
  • Controla todo o dinheiro e os contactos e saídas sociais da sua amiga;

Todos estes sinais podem indiciar uma situação de violência e não não deve ficar indiferente.

Antes de tentar ajudar, saiba o que nunca deve fazer:

Antes de mais, deve recomendar à sua amiga que procure apoio junto da APAV. Mas esta não é uma decisão tomada de ânimo leve e, por isso, por mais que sua intenção seja a de ‘salvar’ a vítima com urgência,  a associação alerta para o que não deve fazer:

  • Dizer à sua amiga o que fazer: a decisão é sempre da vítima;
  • Dizer-lhe que ficará desapontado se a sua amiga não fizer o que lhe disse para fazer ou se voltar para o/a agressor/a;
  • Fazer comentários que possam culpabilizar a vítima por ser vítima;
  • Tentar fazer “mediação” entre a vítima e o/a agressor/a;
  • Confrontar o/a agressor/a, porque pode ser perigoso para si e também para a vítima.

“Ajudar como amigo/a ou familiar uma vítima de violência doméstica não significa ter de resolver pelos próprios meios a situação ou salvar a vítima. Por outro lado, é importante estar consciente que deixar uma relação violenta pode ser difícil, perigoso e demorar tempo”, sublinha a APAV.

Em caso de emergência, ajude a planear uma fuga

Se a vítima vive com o/a agressor/a:

  • Auxilie no planeamento da sua fuga de casa para uma eventualidade;
  • Não é aconselhável que tenha facilmente acessível armas, facas, tesouras ou outro objetos que possam ser usados como armas;
  • A vítima pode fazer uma lista de pessoas em quem confia, para contactar em caso de emergência e coloque o seu contacto nas teclas de contacto rápido do seu telemóvel;
  • A vítima pode estabelecer uma palavra-chave código com amigos, familiares ou vizinhos para chamarem a polícia;
  • A vítima deve ter sempre algum dinheiro consigo;
  • Deve fixar todos os números telefónicos importantes (polícia, hospital, amiga/o);
  • Deve também saber onde se encontra o telefone público mais próximo e se possuir telemóvel mantenha-o sempre consigo;
  • Pode preparar um saco com roupas e deixe-o em casa de amigas/os ou no trabalho, para o caso de precisar de fugir de casa;
  • Estar preparado/a para deixar a residência em caso de emergência;
  • Saber para onde ir se tiver que fugir.

Durante a agressão:

  • A vítima deve referenciar áreas de segurança na casa onde haja sempre saída e o acesso a um telefone. Quando houver uma discussão evite a cozinha ou a garagem dado o elevado risco de aí se encontrarem facas ou outros objetos suscetíveis de ser usados como armas;
  • Deve tentar evitar igualmente casas de banho ou pequenos espaços, sem saídas, onde o/a agressor/a o/a possa aprisionar;
  • Se possuir telemóvel, deve mantê-lo sempre consigo e chamar a polícia ou um amigo.

Se a vítima decidir sair de casa:

  • A vítima deve ter sempre consigo dinheiro, um cartão multibanco ou um cartão para utilizar um telefone público;
  • Saber a quem pode pedir abrigo ou dinheiro;
  • Utilizar uma conta bancária à qual o/ agressor/a não tenha acesso;

Quando efetivamente a vítima sair de casa:

  • Nunca deve levar bens que pertençam ao/à agressor/a, porque isso pode ser motivo de represálias;
  • Deve guardar num só local cartão de cidadão, certidões de nascimento dos filhos (ou cartão do cidadão, cartões da segurança social, identificação fiscal, centro de saúde, passaporte, boletim de vacinas, carta de condução e documentos do automóvel, agenda telefónica, chaves (carro, trabalho, casa), livro de cheques, cartão multibanco e de crédito;
  • Se tiver crianças, pode levar os seus brinquedos preferidos e os seus livros escolares;
  • Se a vítima participar às autoridades policiais pode pedir, se necessário, no âmbito do seu processo penal, uma medida judicial de proibição do/a agressor/a o/a contactar. A violação dessa ordem judicial pelo/a agressor/a também é crime;
  • A vítima deve mudar de número de telemóvel e bloquear os endereços de email do/a agressor/a; deve também ter cuidado a dar os seus contactos pessoais (a nova morada, o novo número de telemóvel);
  • Se necessário, deve alterar as suas rotinas e os seus percursos habituais e conhecidos do/a agressor/a para casa, para o trabalho, para o ginásio, para as compras, ou outros locais.
  • Se possível, dar a conhecer a amigos, familiares, colegas a sua situação, uma vez que estes o/a podem ajudar a controlar os movimentos do/a seu/sua agressor/a;
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