“Sismo”, “ingovernável”, “chapada”, “humilhante”: como os jornais franceses veem o resultado e o futuro de Macron

Os jornais franceses destacam esta segunda-feira o “sismo político” que representam os resultados das eleições legislativas, com o crescimento da extrema-direita e o fim da maioria absoluta para a coligação presidencial, e falam numa “chapada” dada a Macron.

No dia a seguir à segunda volta das eleições legislativas francesas – em que a coligação presidencial obteve 245 deputados, ficando muito aquém dos 289 necessários para a maioria absoluta –, o jornal conservador “Le Figaro” puxa para a manchete uma imagem de Emmanuel Macron com cara apreensiva, para ilustrar um Presidente à “prova de uma França ingovernável”, como se lê no título.

No editorial deste jornal, o jornalista Alexis Brézet considera que a França deu no domingo à noite um “salto para o desconhecido”, infligindo uma “derrota humilhante” a Macron e tornando a Assembleia Nacional um “caldeirão fumegante de paixões”.

“Como governar o ingovernável? Esse é o desafio – crucial e talvez insolúvel – que Macron tem agora de enfrentar. (…) Numa altura em que a sua sucessão já começa a marcar os espíritos, o risco nunca foi tão grande de ele ficar na história como o espetador impotente de um mandato que morreu, antes de sequer ter começado”, lê-se no “Le Figaro”.

O jornal de esquerda “Libération” fala numa “chapada” dada pelos eleitores franceses a Emmanuel Macron, que “deita por terra” a “pretensão” que o Presidente francês tinha de ser, simultaneamente, “de direita e de esquerda”. “Tendo em conta que a natureza política tem medo do vazio, essa estratégia acabou por apenas alimentar as oposições radicais ou extremistas, sem propor ou oferecer um projeto político que pudesse ser maioritário. O mandato que agora se inicia parece uma ‘terra incógnita’ para Macron”, é escrito nas páginas do diário.

Segundo o “Libération”, o chefe de Estado está agora em “estado de sítio” na Assembleia Nacional, “preso numa tenaz entre uma esquerda reforçada e uma União Nacional que atingiu níveis históricos”, e com uma “maioria demasiado ‘curta’ para ter esperança de governar com um punhado de deputados de direita”.

Com o título “Ingovernável!”, o diário popular “Aujourd’hui en France” também aborda uma eventual negociação entre o partido de centro-direita Republicanos e a coligação presidencial – suficiente para ultrapassar os 289 necessários para uma maioria absoluta – para referir que os deputados de direita se tornaram “mestres do jogo”.

No entanto, o jornal considera que esse cenário pode vir a ser improvável: “É difícil ver os Republicanos a oferecerem prendas a Macron agora que este está em dificuldades quando, nos últimos cinco anos, se esforçou sempre por absorvê-los”.

O jornal económico “Les Echos” fala mesmo num “sismo político” que obriga o Presidente francês a “negociar caso a caso, à esquerda e à direita”, e faz com que “caso as oposições se aliem, o governo possa cair a qualquer momento”.

“As eleições legislativas terminam com uma derrota ensurdecedora para Emmanuel Macron, muito longe de obter uma maioria absoluta e preso entre uma esquerda radical e uma União Nacional que surpreendeu e ultrapassou o flanco da direita”, lê-se num editorial de Cécile Cornudet.

Com dificuldade em criar um governo estável, a versão digital do “Le Monde” – que só sai em papel à tarde – fala numa “situação de precariedade inédita” para a coligação presidencial, que corre o risco de ser sujeita a “crises políticas permanentes”.

Segundo o jornal, os apoiantes de Emmanuel Macron receiam “paralisia total” após as legislativas de domingo e defendem “a dissolução” da Assembleia em 2023.

No entanto, o jornal refere que a “divisão das frentes contra o Macron pode também ser uma oportunidade para o campo presidencial”, uma vez que, apesar de os deputados da coligação de esquerda Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES), liderada por Jean-Luc Mélenchon, e da União Nacional serem “numerosos”, “opõem-se profundamente”.

“Uma coligação anti-Macron, que junte a esquerda e a extrema-direita, não parece possível. (…) Há diferenças de fundo: nada une estas duas famílias políticas em temas tão estruturantes como a República, a luta contra o racismo e a islamofobia, a luta contra as discriminações ligadas ao género, a transição ecológica, ou ainda as questões institucionais”, lê-se num artigo assinado pelo jornalista Abel Mestre.

É precisamente o facto de “nenhum campo ter conseguido obter a maioria absoluta” que leva o jornal católico “La Croix” a puxar para a manchete o título “França fragmentada”.

No editorial deste jornal, o jornalista Jérôme Chapuis considera que o sistema político francês está rodeado de “nevoeiro”.

“A nossa democracia anémica precisa do maior número de pessoas para responder aos desafios, a começar por um Presidente que se deve assumir como garante das instituições, sem pretender carregar, sozinho, todo o peso do edifício republicano”, lê-se no jornal.

O jornal comunista “L’Humanité” diz que, com o resultado das legislativas, o “rei vai nu”: “A arrogância do inquilino do palácio do Eliseu, a campanha indecente entre as duas voltas das legislativas (…) viraram-se contra ele”, escreve a jornalista Maud Vergnol.

Este jornal culpa a coligação presidencial de Macron pelo sucesso da União Nacional, de Marine Le Pen – que passou de oito deputados para 89, registando um resultado histórico –, afirmando que “a extrema-direita pode agradecer aos ‘macronistas’”.

“Muitos candidatos da coligação presidencial que foram derrotados na primeira volta consideraram que seria oportuno não dar nenhuma indicação de voto para a segunda volta. Ou, pior, equipararam a extrema-esquerda e a extrema-direita. Foram manobras baixas (…) que acabam por se virar contra o Presidente”, aponta ainda o jornal.

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