Rita Dias: “Entre outras coisas, a violência doméstica é uma consequência da sociedade patriarcal em que crescemos”

Num tempo de pandemia, com as dificuldades e obstáculos maiores para todos, Rita Dias encontrou no crowdfunding uma via de saída para financiar o seu segundo trabalho discográfico, intitulado “Morremos Tanto para Crescer”. Nesta entrevista por e-mail, a cantora, compositora, atriz e escritora fala do seu percurso e de como foi apoiar a irmã, Joana Dias, repórter da RTP, no sofrimento a que foi submetida como vítima de violência doméstica. 

 

O que a atraiu para a música e para o teatro?

É uma forma de estar, através da qual expressamos o ser que somos. Eu entendi que a música e o teatro, pela força da palavra e da voz, são um veículo para chegar a mim, nas minhas diversas fases, e, consequentemente, a quem me vê e ouve.

 

Como recorda a participação no Festival da Canção da RTP?

É uma mostra da música portuguesa. E isso fez-me sentir muito honrada, ao pisar o palco ao lado de grandes artistas e compositores/as portugueses/as.

 

Esteve há alguns meses a interpretar, na Boutique da Cultura, a peça “Silêncio e Tanta Gente”, sobre o tema do tráfico de seres humanos: é uma cidadã empenhada em causas, uma vez que já colaborou com ONG e fez voluntariado?

Sou uma cidadã, ponto. E essa definição, para mim, engloba a participação na polis, no espaço público a que pertenço, dando o que sei e o que sou. Portanto, o “ser empenhada em causas” é-me natural desde que me lembro de ser jovem mulher, a formar a minha personalidade.

O “ser empenhada em causas” é-me natural desde que me lembro de ser jovem mulher, a formar a minha personalidade.

 

Outra questão que a preocupa é a violência doméstica: como classifica esse flagelo e o que deve ser feito para acabar com ele?

Não sou estudiosa do tema, nem me sinto capaz de falar com propriedade sobre o que deve ou não ser feito. É um tema que me toca pela dor que provoca, pelo medo que provoca e pela prisão que provoca. A APAV, a UMAR e a Corações Com Coroa são exemplos de associações que trabalham no terreno, que têm profissionais disponíveis para ajudar as vítimas de violência doméstica. Ainda assim, entendo que a violência doméstica é, entre outras coisas, uma consequência da sociedade patriarcal em que crescemos, sobretudo antes mas também depois do 25 de Abril, em que o poder é entendido como posse e abuso de um/a suposto/a mais fraco. Mas não é. O maior poder é a liberdade, que no centro tem o respeito pela dignidade humana.

 

A violência doméstica é, entre outras coisas, uma consequência da sociedade patriarcal em que crescemos, sobretudo antes mas também depois do 25 de Abril, em que o poder é entendido como posse e abuso de um/a suposto/a mais fraco. Mas não é. O maior poder é a liberdade, que no centro tem o respeito pela dignidade humana.

 

A sua irmã, Joana Dias, revelou há pouco tempo ter sido vítima de violência doméstica por parte do companheiro que inclusive a ameaçou de morte. Ficou surpreendida? E como a ajudou a sair da situação?

Fiquei, claro. Ajudei com o amor de irmã que tenho por ela, tentando informar-me sobre o que um/a familiar deve fazer nestas situações. O principal é não julgar o tempo que a pessoa que é vítima de violência demora a tomar as suas decisões. Para quem está fora é tudo mais claro, mais objetivo, mas para quem está dentro não. E isso tem de ser absolutamente respeitado.

 

O principal é não julgar o tempo que a pessoa que é vítima de violência demora a tomar as suas decisões. Para quem está fora é tudo mais claro, mais objetivo, mas para quem está dentro não. E isso tem de ser absolutamente respeitado.

 

Quando fizeram juntas o podcast “A Mim, Nunca” para a Antena 1, já sabia do que se passava e parte do que a Joana viveu foi ali retratado?

Sim.

Uma das músicas do seu próximo disco, “Morremos Tanto para Crescer”, é dedicada à sua irmã: isso é fundamental para a apoiar depois do sofrimento a que foi submetida?

Sim. É curioso porque, no meu primeiro disco, tenho uma canção que é dedicada a um antigo programa da minha irmã, o Pontapés na Gramática, que fazia com a Sandra Duarte Tavares. E agora, no segundo, volto a ter uma canção para um programa dela, o “A mim, nunca”. Sou uma admiradora do que a minha irmã faz e quero, sempre e desde sempre, que ela esteja bem.

Como foram as experiências de morar no Brasil?

É o meu segundo país. Isso diz tudo. Especificamente no Rio de Janeiro, que foi a cidade que me acolheu, há uma Rita que não é possível ser vista cá. E não é propositado, simplesmente não é a mesma coisa. O que é bom porque tenho sempre de lá voltar.

 

[O Brasil] é o meu segundo país. No Rio de Janeiro, que foi a cidade que me acolheu, há uma Rita que não é possível ser vista cá. E não é propositado, simplesmente não é a mesma coisa. O que é bom porque tenho sempre de lá voltar.

 

 

É uma cantora que faz teatro e escreve ou uma atriz/escritora que canta?

Sou uma mulher que gosta de cantar, de compor, de representar e de escrever. Felizmente, fui abençoada com a possibilidade de concretizar todos esses gostos.

 

No primeiro trabalho discográfico, intitulado “com os pés na terra”, ao lado dos Malabaristas, o vídeo do tema “A Gente Dura” punha um país inteiro a cantar – desde nomes grandes da Cultura, como Eunice Muñoz, Carlos do Carmo ou Paulo de Carvalho, aos cidadãos anónimos. O que restou desse trabalho em colaboração?

O quanto aprendi, sobre todas as pessoas com quem me cruzei, sobre a música portuguesa e sobre o meu país. Eu adoro aprender, conhecer as raízes culturais de quem somos. Estou constantemente em busca. O disco “com os pés na terra” foi o primeiro cultivo, o que me abriu portas para ter a cabeça nas nuvens, a sonhar alto mas em segurança.

Adoro aprender, conhecer as raízes culturais de quem somos. Estou constantemente em busca. O disco “com os pés na terra” foi o primeiro cultivo, o que me abriu portas para ter a cabeça nas nuvens, a sonhar alto mas em segurança.

 

Que análise faz à forma como têm faltado apoios à Cultura?

Devo ser franca: sendo solteira e sem filhos/as, o pouco que me chegou foi muito importante e determinante para os compromissos que tinha. Reconheço a ajuda ou, pelo menos, a tentativa de ajudar. No entanto, ajudas pontuais não saram golpes profundos. O Ministério da Cultura acordou de um sono profundo e apenas porque foi arrancado da cama pela pandemia, não por iniciativa própria. Os/As profissionais da cultura não são precários/as desde a pandemia, sempre foram. Não têm apoios da Segurança Social na doença, na gravidez, mesmo pagando todos os meses, também não têm contratos. As diversas estruturas culturais, como a GDA ou o Cena-STE, têm um historial de pressão junto do ministério e têm de ser ouvidas, pois são elas que conhecem as reais necessidades dos/das profissionais da Cultura. Isto permite a criação de estratégias para a Cultura em Portugal, entre quem sabe e quem pode. A Cultura de um país é sempre o princípio do futuro. Sem ela, tendemos a existir sem identidade.

Ajudas pontuais não saram golpes profundos. O Ministério da Cultura acordou de um sono profundo e apenas porque foi arrancado da cama pela pandemia, não por iniciativa própria. Os/As profissionais da cultura não são precários/as desde a pandemia, sempre foram. Não têm apoios da Segurança Social na doença, na gravidez, mesmo pagando todos os meses, também não têm contratos.

 

Está a tentar o lançamento do seu segundo trabalho discográfico via ‘crowdfunding’: como funciona isso?

Preciso de apoio financeiro para fazer o grafismo do disco, para gravar videoclipes e para promover o disco junto dos media e das redes sociais. O link para apoiar é o ppl.pt/ritadias. A partir desta plataforma, segura e de confiança, qualquer pessoa pode doar ou partilhar pela sua rede de contactos.

Preciso de apoio financeiro para fazer o grafismo do disco, para gravar videoclipes e para promover o disco junto dos media e das redes sociais. O link para apoiar é o ppl.pt/ritadias. A partir desta plataforma, segura e de confiança, qualquer pessoa pode doar ou partilhar pela sua rede de contactos.

 

Como tem ultrapassado estes tempos de pandemia, marcados pelo distanciamento de quem mais gosta?

A ler mais, a fazer mais desporto, a estudar mais piano.

 

O que gostaria de concretizar nos próximos anos?

O que tenho concretizado nestes: manter-me sempre perto, ou mesmo na linha, da pessoa que sou em cada momento.

 

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