Presidenciais: Do entusiasmo de multidões aos perigos do estranho distanciamento

Rui Guedes, escritor e bibliotecário responsável pelo Serviço de Biblioteca Itinerante (Bibliomóvel) da Biblioteca Municipal de Penafiel, escreve sobre memórias de outras presidenciais e olha para o próximo domingo com preocupação.

 

Nasci em 1974. Frase curta, de parcas palavras, mas rompendo do ventre para o mundo num enlevo de liberdade. Falar desse ano é assumir o custo dos anos antecessores. Não falar desse ano, é dar novamente a voz aos que calamos, aos que se escondem como lacraus debaixo das fragas nos montes e das pedras do caminho, desertos pelo espicaçar dos seus ferrões envenenados. Tudo teve o seu tempo, mas não esqueçamos nunca quanto tempo levou a fundir e a moldar o metal que, no próximo domingo, se colocará em cima de cada uma das mesas nas assembleias de voto.

Vivi a infância em plena euforia eleitoral. Perdi-me em multidões por apenas um autocolante, um calendário de bolso, uma caneta ou um crachá. A política deixava-se tatear. Os políticos eram o elo tangível às mãos do povo, que os procurava, e neles acreditava se lhes pudesse tocar. Não havia sondagens, jantares comício ou bandeiras de plástico em cima das cadeiras num qualquer auditório. O povo pintava paredes, colava cartazes de madrugada e cosia as bandeiras aos paus apanhados no bosque. Não havia arruadas. O povo esperava à hora (mais ou menos) prevista, aglomerando-se espontaneamente no primeiro lugar onde pudessem parar os carros dos candidatos.

Recordo os meus doze anos e as presidenciais de 1986. Tenho bem vivo o dia em que coincidiu a presença dos dois principais candidatos na pequena vila (agora cidade) de Paredes no distrito do Porto, onde ainda moro: Mário Soares e Freitas do Amaral. O local escolhido foi a Praça José Guilherme. Primeiro, Freitas do Amaral, em frente ao edifício da Câmara Municipal apinhado de gente, no tejadilho do carro de megafone em punho. Momentos depois, no lado oposto da Praça, em frente ao Tribunal, chegava Mário Soares. As pessoas correram na sua direção, vindas do comício que acontecera poucos minutos antes. Surgiu pela janela do carro segurando um cravo na mão, acenando convictamente para todos, mas sem que proferisse qualquer palavra. Soube-se, algum tempo depois, que esperara à entrada da vila que o candidato rival desimpedisse o local escolhido para parar. Salgado Zenha também por lá passou. Anunciaram um comício na Praça Capitão Torres de Meireles, mas a dezena de pessoas que aguardaram pelo discurso limitaram-se à irritação do candidato por tão pouca assistência, ameaçando ir-se embora sem dizer o que quer que fosse. O salão de festas do quartel dos bombeiros acolheu os fundadores do MASP, Valentim Loureiro e Miguel Veiga, e a estranheza de uma rosa estampada em fundo laranja.

Votei a primeira vez numas presidenciais nas eleições que mandataram Jorge Sampaio. Vinte anos haviam passado sobre o 25 de Abril, já não cheirava a novidade e a classe política começava a promover este distanciamento que, volvidos mais vinte anos, se efetiva de modo preocupante. A eleição do mais alto magistrado envolve-se em laivos de vulgaridade, e a perspetiva de minutos de antena decretados ao abrigo de leis eleitorais engendra néscios intentos, pasto fácil para mentes descontentes e ávidos agitadores. Que a estranheza destes dias não abrigue as consequências do que aí pode vir, e tenhamos a consciência (nós que o vivemos) que 1986 jamais voltará. O povo deixou-se de correrias de um lado para o outro da Praça, mas não olvidará nunca o som do megafone em punho, e o acenar convicto do cravo seguro na mão…





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