Presidenciais: Alice Vieira e a fraude que impediu a eleição de Humberto Delgado

A escritora e jornalista Alice Vieira recorda eleições presidenciais de outros tempos. E não só…

 

Devo ser das poucas pessoas que ainda se lembram — nitidamente! —de ir a um lugar onde estava muita gente a falar alto e a bater palmas e alguns a gritarem por um único nome: Norton de Matos.

Nessa altura eu tinha 5 anos e era criada pelo meu tio Joaquim,  republicano de gema, que me estava sempre a mostrar as cicatrizes que tinha numa perna por ter estado na Rotunda a lutar pela República, no dia 5  de Outubro de 1910.

O meu tio entrou em todas as conspirações para deitar abaixo o Estado Novo. E levava-me sempre com ele. Chegava ao café – a Leitaria Persa, no Rossio, que hoje, evidentemente, já não existe — e que era onde se reuniam os conspiradores. Sentava-me em cima do balcão e eu adorava lá estar porque todos os que entravam se metiam comigo — uma criança no meio daqueles homens todos… e eu empanturrava-me de chocolates que eles me davam.

Claro que todas as conspirações falhavam.

Mas naquela altura em que comecei a ouvir o nome de Norton de Matos, todos estavam convencidos de que as eleições iam deitar abaixo o Estado Novo e eleger este general como presidente. Então, o meu tio deixou de ir à Leitaria Persa e andava comigo em comícios (nunca me lembro de ter ouvido tal palavra nesse tempo) e contava-me tudo sobre aquele senhor: o que era, o que fazia, por onde tinha andado, etc… Um dia até me mostrou uma fotografia dele, assinada por ele para o meu tio. Ainda a tenho cá em casa.

Mas depois acabou-se tudo. O Salazar intrometia-se em todos os assuntos, proibia tudo — e ele acabou por desistir.

A minha primeira experiência eleitoral acabou aí.

O meu tio voltou às conspirações na Leitaria Persa e eu com ele.

Passados 10 anos, andava eu no então 5.º ano do liceu Filipa de Lencastre e já percebia bem o que se passava, surgiu outro general nas nossas vidas: Humberto Delgado.

Devo dizer que o meu tio não alinhou logo às primeiras. Lembro-me de ele me dizer que era um general da confiança do regime, ná, aquele não o levava. E enfiou-se — e eu com ele — na campanha do outro candidato, Arlindo Vicente. Para mim era ótimo porque o senhor morava mesmo ao pé do meu liceu e eu não falhava a nada….

Até que toda a gente contra o Estado Novo se uniu em volta  da candidatura de Humberto Delgado.

E lá voltei eu aos comícios e mais comícios – conservo hoje ainda uma fotografia num deles, no Centro Republicano Fernão Boto Machado, a ouvir o Capitão Varela Gomes a falar e eu a bater palmas ao lado da Vera Lagoa — nessa altura ainda Maria Armanda Falcão.

Foi aqui que participei efetivamente pela primeira vez numa campanha eleitoral. Não faltava a comícios, distribuía propaganda, tentava levar outras pessoas.

E depois foi o que foi: a maior fraude eleitoral de que há memória.

Considerei-me vacinada. Ninguém nunca iria conseguir nada.

Claro que foi havendo eleições fantoches, o candidato do regime, sempre. Nem saía de casa.

Até que veio o 25 de Abril — e tudo mudou. Nunca me hei de esquecer das filas e filas para se ir votar nas primeiras eleições livres.

E, claro, a partir daí, nunca deixei de votar—e ainda hoje aceito muito mal quem se abstém. Não gosta de nenhum candidato? Não interessa, vai lá e vota em branco, isso significa “quero participar nas não quero nenhum destes.” É uma presença. Não é virar as costas e assobiar para o ar.

E lá temos tido eleições, com gente boa, com gente má, com gente assim assim, mas eleições democráticas.

A partir daqui aquelas eleições de que me lembro têm apenas — e já é muito — um  valor afetivo: as eleições presidenciais de 1986, onde a  minha filha votou pela primeira vez; as autárquicas de 1989, onde o meu filho votou pela primeira vez; e as legislativas de 2019, onde o meu neto votou pela primeira vez.

Nunca os influenciei em nada. Nunca sei em quem eles votam. Mas acho que votam bem.





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