Países com as mesmas vacinas têm diferentes níveis de mortalidade. Sabe porquê?

A vacina parece ser a resposta para muitas das perguntas associadas à pandemia de Covid-19, mas não é assim tão claro quando se fala de taxa de mortalidade. Em países com o mesmo nível de acesso a vacinas, verificam-se números muito diferentes em termos de vítimas mortais. Porquê?

Segundo a Bloomberg, trata-se de um dos maiores quebra-cabeças da crise sanitária: como se justifica que, com grande parte da população inoculada, os mais recentes surtos de Covid-19 sejam mais letais em determinadas regiões?

Na Alemanha, Dinamarca ou Reino Unido, as mortes de pessoas infetadas com o novo coronavírus caíram para cerca de um décimo face a picos anteriores, de acordo com cálculos elaborados pela Bloomberg. Por outro lado, Israel, Grécia e Estados Unidos da América apresentam uma descida mais ligeira, com as mortes a manterem-se em mais de metade de surtos anteriores.

Para tentar perceber este fenómeno, a Bloomberg analisou países com mais de 55% da população vacinada com os fármacos desenvolvidos pelas farmacêuticas ocidentais como a Pfizer ou Astrazeneca – e que apresentam taxas de eficácia entre os 60 e os 90%.

A primeira conclusão é clara: a justificação não reside somente na escolha de um tipo de vacina ou na extensão da vacinação num país. «Mesmo em locais com grande vacinação, vemos que a variante Delta pode provocar um pico no número de casos», sublinha Natalie Dean, professora de Bioestatística na Emory University.

Ouvida pela mesma agência noticiosa, sugere que são vários os fatores por detrás dos diferentes resultados em diferentes locais. Um desses fatores poderá ser o espaçamento entre doses da vacina.

Em dezembro do ano passado, o Reino Unido, por exemplo, decidiu que seriam necessárias 12 semanas de intervalo na administração das duas doses da vacina da AstraZeneca. A ideia era que mais pessoas pudessem ter acesso à primeira dose, ideia essa que agora já foi validada por vários estudos científicos.

Dinamarca e Alemanha também aprovaram intervalos mais longos. No sentido inverso, houve países que decidiram esperar somente três a quatro semanas entre cada dose, como aconteceu em Portugal.

Michael Osterholm, diretor do Centro de Investigação de Doenças Infeciosas da University of Minnesota, acredita que estas diferentes abordagens resultaram numa «experiência natural de imunologia». De acordo com este especialista, as pessoas que tomaram as duas doses mais espaçadas poderão ter visto a sua resposta imunitária reforçada, uma vez que o processo de maturação da primeira para a segunda foi concluído.

Outro dos possíveis motivos para as diferentes taxas de mortalidade assenta no surgimento de novas variantes. Em Israel e nos EUA, por exemplo, é provável que a resistência ao vírus estivesse mais baixa quando a variante Delta apareceu porque começaram a vacinar mais cedo.

«Com o desvanecer da imunidade, quanto mais cedo começaram a vacinação, mais infeções em pessoas vacinadas terão agora», adianta Hitoshi Oshitani, epidemiologista na Tohoku University. «Provavelmente, é por isso que estão a ter agora mais casos e mortes em Israel.»

Nesta análise, há que ter em atenção também a idade: focar os planos de vacinação nos mais velhos, garantindo que estes cidadãos recebiam a vacina primeiro ajudou países como a Dinamarca ou o Japão a minimizar a taxa de mortalidade. No Japão, cerca de 90% dos habitantes com mais de 65 anos tem a vacinação completa e isso notou-se no mais recente surto. Em agosto, a taxa de mortes desceu 43% em relação ao pico anterior, apesar de o número de novos casos de infeção ter aumentado 2,5 vezes.

Por fim, surge a imunidade natural. Paradoxalmente, ao investirem em medidas muito apertadas para evitar a propagação do vírus, países como o Japão mostram-se mais vulneráveis a variantes muito contagiosas. Por outro lado, países que sofreram com variantes mais mortais antes de a Delta aparecer, estão agora mais imunes a esta variante.

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