O Ocidente receia que a Rússia esteja prestes a atacar a Ucrânia. Mas não é assim que os russos veem o caso na TV

Vistas num ecrã do mundo ocidental, não há dúvidas: às ordens de Putin, uma série de manobras militares indicam claramente que os russos estão prestes a atacar a vizinha Ucrânia. Já a partir de Moscovo, e apesar de a televisão também estar a transmitir imagens de tropas, arames farpados e franco-atiradores, a mensagem é claramente oposta: estão ali a mando da NATO, sigla da Organização do Tratato do Atlântico Norte, uma aliança entre uma série de países da Europa e da América.

Diz a CNN que esta imagem-espelho da Rússia sobre a Ucrânia não é de agora. Há muito que, no país de Putin, há uma paisagem mediática alternativa, fazendo assim acreditar que as forças da NATO estão a levar a cabo um plano em execução há anos. O objetivo, insistem, é claro: cercar a Rússia, derrubar o presidente Putin e tomar o controlo dos recursos energéticos do país.

Daí que, em todos os noticiários e programas de entrevistas, a perspetiva apresentada é que a Ucrânia é um Estado falhado e controlado pelo que chamam “mestre das marionetas”, alcunha usada para referir os EUA. E a Europa não sai melhor na fotografia, ao ser apelidada de “coleção fraca de cães de colo” às ordens de Washington, claro.

A alimentar a propaganda estatal russa, também qualquer indício de desacordo entre a Europa e os EUA ou na NATO tem de imediato chamada de capa nos jornais russos. Nesta guerra de palavras, já se ouviu também o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, acusar claramente Washington de “histeria da informação”, “mentiras” e “falsificações”. E qualquer possível ataque russo à Ucrânia é classificado como resultado de “uma russofobia dos anglo-saxões”.

Perante este cenários, os russos veem-se sem grande alternativa se não pensar que estão a ser arrastados para uma guerra por culpa do ocidente, como se lê num grupo de discussão conduzido pela Riddle, uma revista online sobre assuntos russos. “A Rússia vai ter de responder, afinal estamos a ser beliscados por todos os lados: o que é que devemos fazer? Ceder?”.

No Moscow Times, um artigo de opinião vai ainda mais longe, ao apontar-se um possível “erro de cálculo” na análise feita pelo ocidente às intenções de Moscovo. Segundo escreve Anna Arutunyan, apresentada como uma jornalista russo-americana, o que está a escapar ao mundo ocidental é que “o Kremlin acredita realmente que a Ucrânia está a planear uma apreensão militar da Crimeia e da região de Donbass” – onde separatistas apoiados pela Rússia ocupam territórios há quase oito anos. “Moscovo está assim” prossegue a articulista, “a ponderar opções” para “antecipar e responder” a essa “potencial ofensiva”.

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