Índia choca população ao libertar 11 homens acusados de assassinato e violação coletiva

Em 2002, Bilkis Bano, de 19 anos e grávida de cinco meses com o segundo filho, foi violada por um grupo de homens hindu que percorria as ruas no estado indiano de Gujarat, que perseguiam muçulmanos, tal como ela.

A multidão hindu apontava a minoria muçulmana como a culpada por um incêndio nom comboio que matou cerca de 60 hindus perto da cidade de Godhra, desencadeando uma onda de violência contra a população de fé islâmica, gerando mais de mil morto, relata a ‘CNN’.

Bilkis e um grupo de outros muçulmanos fugiram da aldeia onde viviam, procurando refúgio em mesquitas, contando com a ajuda de alguns hindus, mas acabaram por ser descobertos pela multidão em fúria, que, segundo contou à ‘BBC’, os atacaram com espadas e paus.

“Um deles arrancou a minha filha do meu colo e atirou-a ao chão, esmagando-lhe a cabeça contra uma rocha”, revela. A menina tinha três anos.

Bilkis acredita que apenas sobreviveu porque, durante a violação, acabou por desmaiar e os seus atacantes pensaram que tinha morrido. A sua prima, que tinha dado à luz há poucos dias, foi violada repetidamente e acabou por ser assassinada.

O estado de Gujarat era então governado por Narendra Modi, atual Primeiro-ministro da Índia, que sempre negou quaisquer responsabilidades sobre os acontecimentos. Foi o seu próprio partido, que ainda se mantém no poder nesse estado, que esta semana decretou a libertação dos 11 homens que atacaram Bilkis e muitos outros muçulmanos e que serviam prisão perpétua, depois de terem sido declarados culpados de violação e de 14 homicídios. Tinham já cumprido 14 anos da sentença.

A jornalista Arfa Khanum Sherwani, do portal de notícias indiano ‘The Wire’, escreve no Twitter que “a Índia, com 75 anos, é um República da Injustiça”.

A decisão do governo estadual está a ser alvo de duras críticas por parte de partidos da oposição, por organizações não-governamentais de direitos humanos e por alguns comentadores da imprensa indiana.

Esta terça-feira, Bilkis, hoje com 39 anos, reagiu à libertação dos seus atacantes, explicando que “há dois dias, a 15 de agosto, o trauma dos últimos 20 anos atingiu-me outra vez, quando soube que os onze homens condenados que devastaram a minha família e a minha vida, e me roubaram a minha filha de três anos, saíram em liberdade”, cita o ‘Times of India’.

“Fiquei sem palavra. Ainda me sinto dormente”, admitiu, e lançou a pergunta: “Como é que a justiça para uma mulher pode terminar assim?”.

Blikis avança que já pediu ao governo do estado de Gurajat para reverter a decisão, mas isso é um cenário considerado pouco provável.

O marido, Yakub Patel, diz que “Temos muito medo. Sempre tivemos medo, mas esta libertação piora tudo”.

Nos últimos anos, a Índia tem vindo a provar leis mais duras e punições mais severas para crimes sexuais contra mulheres, mas a taxa de condenações por violação continua a ser baixa, relata o ‘The Washington Post’.

Vrinda Grover, advogada que tem trabalhado para reformar as leis indianas sobre crimes sexuais contra as mulheres, diz ao mesmo órgão de comunicação social que o governo liderado por Modi não está realmente preocupado em proteger as meninas e mulheres e que a decisão sinaliza a “impunidade por crimes de ódio”.

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