Germano Almeida entre 2020 e 2021: O regresso da cooperação

Autor de quatro livros sobre presidências americanas, Germano Almeida faz um balanço de 2020 e antecipa um pouco de 2021.

 

2020 foi o ano do sofrimento, do choque e, por vezes, do pânico.

Do assustador aumento das teorias da conspiração, da ameaça obscurantista e demagógica, do populismo facilitista.

Mas foi também o ano da Ciência, do Conhecimento e da Razão.

Em poucos meses uma doença nova tornou-se a principal causa de morte em vários países. Mas em apenas 303 dias a força da investigação científica surpreendeu o mundo com vacinas contra a covid-19 em tempo recorde.

Ao terceiro dia deste ano de todos os sustos e perigos, acordámos com o assassinato seletivo do general Soleimani, em ação patrocinada pela Administração americana.

Seguiu-se o escalar de tensão entre Estados Unidos e Irão. Será que viria aí a ameaça nuclear ou uma “guerra quente” entre duas potências assimétricas?

Qual quê.

Afinal, as semanas seguintes foram anunciando a ameaça crescente de um estranho vírus que, em Wuhan, estava a gerar umas pneumonias violentas. Ok, era lá longe na China. Coitados.

Por março percebemos que, afinal, isto também ia ter a ver connosco. O vírus não era “apenas mais uma notícia má”. Era A NOTÍCIA. De 2020. Da década. A maior notícia do século XXI: a mais perturbadora e disruptiva.

Descobrimos a verdadeira dimensão da palavra “confinamento”. Fechámo-nos em casa, desconfinámos sem saber muito bem como, voltámos a casa, aprendemos a usar máscara. Deixámos de nos abraçar e beijar. E não sabemos bem se tudo isto vai voltar a ser como era até ao “mundo antigo”: fevereiro de 2020.

A vitória da Europa

O “lockdown” gerou triplo choque: da oferta, da produção e da procura. Nunca tinha acontecido.

Os últimos anos foram de recuperação pós crise 2008/2010. Em meses tudo se desmoronou – e eis que surgiu a crise pandémica. Primeiro sanitária. Depois económica. Agora também social.

A Europa respondeu de forma surpreendentemente forte e efetiva, graças ao tandem Macron-Merkel e à liderança daquela que merece receber o prémio de Figura do Ano: a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

A dirigente alemã mostrou-se a líder ideal para o momento que o projeto europeu vive: exigiu a Boris Johnson acordo de saída que evitasse um Hard Brexit; conduziu os 27 a uma solução robusta, que ultrapassou a barreira até agora intransponível da “mutualização da dívida”; construiu pontes entre a vontade claramente maioritária e as resistências dos “frugais” e “iliberais”.

Os riscos do aumento dos egoísmos nacionais tinham tudo para fazer de 2020 o ano da divisão e possível desagregação europeia.

Mas não: a UE termina o ano mais forte e resiliente, provando que da cooperação se faz a força.

A derrota dos demagogos

2020 mostrou a vitória de líderes globalistas e multilateralistas. E revelou a constrangedora incompetência e incapacidade de lidar com problemas reais de líderes demagógicos e populistas.

Trump falhou a reeleição por culpa própria: não avaliou devidamente os efeitos eleitorais do seu estilo “bully” e totalmente autocentrado. Bolsonaro somou declarações que insultam a inteligência do eleitor médio.

Ambos os casos revelam também uma doença que excede em muito os perfis dos atuais Presidentes de EUA e Brasil. Mostram a força crescente das teses negacionistas e conspirativas, nesta sociedade de acesso fácil às teorias mais absurdas, ignorantes e irresponsáveis.

“Para que é que isso interessa?”

Maria Carmo-Fonseca, diretora do Instituto de Medicina Molecular (IMM), Prémio Pessoa em 2010, em entrevista ao podcast do Expresso “O Futuro do Futuro”: «Quanto mais educada for uma pessoa, menor a probabilidade de ela embarcar em teorias da conspiração. E isso não é algo que se possa fazer em momentos de pânico. Tem de ser feito em permanência, investindo na educação.»

A covid-19 rebentou com certezas globais e fundou incertezas. Mas a resposta absolutamente espantosa da Ciência virou a agulha desta história ainda perturbadora.

Durante vários anos, os investigadores que apostaram no RNA mensageiro foram olhados com ceticismo, desconfiança e até algum desdém. O seu trabalho foi visto como uma perda de tempo, um tiro ao lado.

Mas só porque investigadores como o casal turco Ugur Sahin e Ozelm Turen – os cérebros da vacina da Pfizer – ou a húngara Katalin Karikó, investigadora da BioNTech, persistiram nessa via foi agora possível termos vacina menos de um ano depois do surgimento da maior pandemia num século.

Sempre que nos perguntarem “para que é que isso interessa?” vale a pena rebater o ceticismo crónico e continuar a acreditar no que achamos ser importante e valioso. Mesmo que isso não seja logo evidente.

As conspirações e os negacionismos são demasiado rápidos e sentenciosos. São fáceis de consumir e atrativos de se aderir. As evidências demoram a ser provadas. Mas só essas são verdadeiramente relevantes. A aprovação das vacinas covid-19 em tempo recorde termina 2020 com sinal de esperança para o que 2021 nos possa vir a mostrar.

E são a maior lição que podemos aprender sobre os estranhos tempos que nos tocaram viver.



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