França/Eleições: Partidos de esquerda rejeitam proposta de Mélenchon de grupo parlamentar único

Jean-Luc Mélenchon propôs hoje que a coligação de esquerda NUPES, que obteve 131 deputados nas eleições legislativas, forme um único grupo parlamentar na Assembleia Nacional, tendo os restantes partidos que integram a união rejeitado essa possibilidade.

Numa declaração aos jornalistas no 10.º bairro de Paris, à frente da sede da força política que fundou, a França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon defendeu que a Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES) deve “continuar a ser uma alternativa unida”.

“A NUPES deveria constituir um único grupo no parlamento para que, sem nenhuma discussão possível, se torne claro quem é a oposição no país e para que estejamos prontos, a qualquer momento – incluindo caso haja novas eleições – para apresentar uma candidatura NUPES”, referiu.

Segundo o programa da NUPES – que une forças de esquerda como a França Insubmissa, o Partido Socialista, o Partido Comunista ou a Europa Ecologia Os Verdes –, os diferentes partidos na Assembleia Nacional mantêm os seus próprios grupos políticos, apesar de se reunirem “à volta de um único intergrupo”.

No entanto, caso essa configuração se mantenha, o principal partido da oposição na Assembleia Nacional será a União Nacional, de Marine Le Pen, que tem 89 deputados – mais do que qualquer força da NUPES individualmente –, o que, segundo a praxe parlamentar, lhe permitiria, entre outros direitos, nomear o presidente da comissão parlamentar de Finanças.

Para se assegurar que a esquerda obtém a presidência da comissão em questão – que tem o direito de inspecionar o orçamento ou a gestão das finanças do Estado, mas também de convocar o ministro da Economia ou levantar o segredo fiscal de uma empresa –, Mélenchon defendeu que a constituição de um grupo parlamentar único faria com que “a oposição se chamasse NUPES”.

“Não é uma imposição, mas uma proposta. Acho que se o fizermos, agiremos em conformidade com o nosso compromisso para com aqueles que votaram em nós. Claro que isso não impede cada partido de ter uma delegação, como há no Parlamento Europeu”, sublinhou.

Mélenchon sustentou que essa solução seria “um elemento de clarificação e de ordem que se impõe perante o caos que se anuncia”, acrescentando que não propõe “uma fusão”, uma vez que “há identidades distintas”, mas um grupo único que assuma uma “configuração de combate”.

No entanto, junto dos restantes parceiros da NUPES, a resposta à proposta de Mélenchon foi negativa. Do lado socialista, a presidente do grupo parlamentar, Valérie Rabault, recorreu à rede social Twitter para sublinhar que a “esquerda é plural e está representada na sua diversidade na Assembleia Nacional”.

“É uma força ao serviço dos franceses. Querer apagar essa diversidade é um erro, e eu oponho-me”, referiu a deputada.

O porta-voz dos Verdes, Alain Coulombel, também considerou que estava “fora de questão fundir-se num único grupo”.

“Temos um contrato com a NUPES, e acho que é igual para o Partido Comunista e para o PS: tínhamos estabelecido que cada um teria o seu próprio grupo. Esta proposta é inadequada face ao acordo mútuo”, referiu, segundo a agência de notícias francesa AFP.

Do lado dos comunistas, a resposta também foi perentória. O deputado André Chaissagne interrogou-se quanto “ao interesse de ter um grupo único que apaga as sensibilidades e as riquezas de cada um e de cada uma”.

“Quatro grupos dentro da Assembleia vão ser mais fortes do que apenas um: para a esquerda, haverá mais tempo para discursar e mais nomeações”, sublinhou.

O recém-reeleito Presidente francês, Emmanuel Macron, perdeu a maioria absoluta na Assembleia Nacional na segunda volta das eleições legislativas que decorreram no domingo.

A coligação Ensemble!, que apoia o chefe de Estado francês, conseguiu eleger 245 deputados, abaixo dos 289 necessários para alcançar a maioria absoluta.

Já a extrema-direita francesa, representada pela União Nacional (Rassemblement National) de Marine Le Pen, foi a terceira força política mais votada na segunda volta de domingo e conseguiu o seu melhor resultado de sempre ao conquistar 89 assentos parlamentares. Nas eleições de 2017, a força política de Le Pen tinha alcançado a eleição de apenas oito deputados.

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