EUA: O Mundo de Joe Biden

Raquel Vaz-Pinto, Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova (IPRI-NOVA), analisa a personalidade e os desafios de Joe Biden.

 

O próximo Presidente dos EUA é, à primeira vista, alguém fácil de definir. No entanto, quanto mais vamos conhecendo sobre a sua vida, os seus sucessos, as suas tragédias e os seus falhanços, mais vamos ficando com a sensação que Joe Biden é afinal bastante mais complexo e desafiante. O meu ponto de partida, para além das suas palavras e factos da sua vida mais conhecidos, foi a biografia de Evan Osnos publicada recentemente. Desde logo o título fez-me
pensar. Ao contrário do que seria óbvio, ou seja, «Joe Biden e o Sonho Americano», Evan Osnos, de forma subtil, intitulou o seu livro de «Joe Biden, Sonhador Americano».*  E esta diferença não é de todo pequena.

Joe Biden, mais do que o sonho americano tornado realidade, é um «sonhador». E quando terminei a biografia não conseguia deixar de pensar naquelas palavras que definem tão bem a essência deste país e o seu sonho de 1776: «Life, liberty and the pursuit of happiness.» Pode
parecer exagero, mas pensando bem talvez não seja. Joe Biden tem tido uma vida longa e preenchida tendo em conta que é senador dos EUA pelo Delaware desde meados dos anos 70 e foi vice-presidente dos dois mandatos de Barack Obama.

Desde logo, e ao contrário do presidente cessante vamos passar a ter na Casa Branca alguém que conhece muito bem Washington. Mais ainda, alguém que assume a vontade e a necessidade de tornar o Partido Republicano parte de uma possível solução em matérias cruciais. Este traço da sua personalidade é bem visível ao longo da vida e neste momento difícil para a nação norte-americana que se encontra dividida, tribalizada e polarizada pode vir a ser o seu
maior trunfo. Noutro grande livro do ano passado Ezra Klein explica muito bem as razões desta divisão tão profunda. O seu título, «Why We’re Polarized» é bastante elucidativo.

A este problema complexo e difícil de resolver temos que acrescentar a insurreição e a invasão do Capitólio. Ninguém tem ilusões de que a tarefa mais difícil da Administração Biden será a de tentar fazer pontes (ou numa versão mais realista sarar as feridas) entre os Republicanos e os Democratas. E aqui a sua idade, 78 anos, também é outro trunfo, ou seja, Joe Biden não acabou de chegar à política e conhece bem os seus oponentes, desde logo, Mitch McConnell, o líder dos Republicanos no Senado. E, tendo em conta este objetivo, Biden tem vindo a convidar para a sua equipa figuras com uma reputação excelente. É também um sinal evidente que o próximo presidente dos EUA sabe bem a tarefa hercúlea que o espera: a polarização, a pandemia, a economia e o passado e presente de Donald Trump, entre outros. E a nível internacional teremos a superpotência de regresso. Em relação à política externa dos EUA os nomes que já conhecemos, primeira e segunda linhas, são boas apostas. E nós bem precisamos de uns EUA
presentes no mundo.

Não é possível ficar impávida e serena perante a perseverança do próximo Presidente dos EUA e a sua capacidade de se reerguer após tragédias, que lhe provocaram um sofrimento atroz. A «procura da felicidade» não é um conceito abstrato para Biden e facilmente percebemos como é um pilar da sua vida, que é centrada na família. São conhecidas as tragédias pessoais de Joe Biden. Em 1972, perdeu a sua mulher e a filha num acidente de carro, no qual os dois filhos
ficaram feridos. Em 1988, aneurismas que o deixaram incapacitado durante meses. E, em 2015, a morte do seu filho Beau.

Não quero com isto passar uma esponja sobre os muitos erros cometidos por Joe Biden. Ou as suas famosas gaffes, que deixaram muitos dos assessores do Presidente Obama, entre outros, à beira de um ataque de nervos. Nem algumas das suas decisões políticas das quais aliás o próprio se arrepende. Mas, como escreve Evan Osnos: «(…) para um povo de luto, ele é capaz de nos oferecer consolo, uma linguagem que nos permita cicatrizar.»

* Evan Osnos, Joe Biden, American Dreamer, Bloomsbury, Londres, 2020.





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