Especialistas apoiam “libertação da sociedade”, mas criticam certificados e abertura de discotecas no outono

Depois de o Conselho de Ministros ter decidido avançar, a 1 de outubro, com a última fase do desconfinamento em Portugal, especialistas ouvidos pela ‘Multinews’ reagem às medidas.

De forma geral, os responsáveis adiantam que concordam com as regras e com o avanço do desconfinamento em Portugal, sobretudo pela elevada taxa de vacinação contra a Covid-19.

“Não podemos manter medidas só por precaução”

Sem querer especificar nenhuma medida, Tiago Correia, investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, indica que as regras anunciadas são “adequadas”. “Até prova em contrário fez-se tudo o que se precisava de fazer do ponto de vista de proteção da população”, afirma.

“Por um lado, a população que aceitou ser vacinada está vacinada, por outro lado a incidência do vírus e da doença continuam a baixar, sobretudo nos internamentos”, refere o especialista.

Neste sentido, sublinha, “nós não podemos estar a manter medidas restritivas sob o principio da precaução. Serei o primeiro a dizer que as medidas devem ser revistas em função de circunstâncias específicas e caso se agravem. Mas neste momento não se estão a agravar”, reitera.

“Não faz qualquer sentido estarmos a tentar antecipar uma coisa que não sabemos se vai acontecer – o agravamento da epidemia no Outono/Inverno– mantendo as pessoas em suspenso”, defende.

Para Tiago Correia, “devemos abrir o mais que pudermos nesta fase, mantendo algumas regras e critérios, mas tendo a consciência de que a mensagem deve ser: ir reavaliando a situação à medida do tempo”.

O responsável deixa ainda um alerta: “Andarmos para a frente agora, não significa que num futuro incerto não tenhamos de recuar, suspender ou reavaliar tudo o que está a ser feito, em função da doença”.

Reabertura de discotecas não é ideal mas é “inevitável”

Também Gustavo Tato Borges, atual presidente em exercício da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), concorda de maneira geral com este alívio de regras, ainda que faça algumas observações.

“Considero que o fim da lotação dos espaços comerciais e culturais é uma medida perfeitamente aceitável, tendo em conta o estado vacinal em que nos encontramos e a tendência decrescente da taxa de incidência”, indica.

Segundo o médico, “não podemos olhar só para a vacinação, temos de ver também os outros indicadores epidemiológicos e tanto a taxa de incidência como o Rt têm apresentado uma evolução bastante positiva e por isso parece-me lógico que esse seja o passo a tomar”.

Já, “quanto à abertura das discotecas e bares, considero que não há forma de a evitar. Se me perguntar se seria ideal que abrissem agora, numa altura em que estamos a entrar no outono/inverno, não, o ideal seria se abrissem numa época de calor”, reitera.

“Mas a verdade é que nesta fase atingimos uma cobertura vacinal bastante elevada, quase 85% das pessoas completamente vacinadas, o que é algo extremamente vantajoso, que faz com que seja normal abrir algumas instituições e estabelecimentos”, adianta.

Só há uma regra com a qual o responsável não concorda: continuar a exigir certificado digital para visitar lares e estabelecimentos de saúde, frequentar eventos culturais, desportivos ou corporativos e ter acesso a bares e discotecas, apesar de a medida ter caído na restauração e hotelaria.

“Não acho que a apresentação do certificado de vacinação seja uma vantagem. Porque temos 15% de pessoas que não estão vacinadas, destas, cerca de 10% são crianças abaixo dos 12 anos que não serão vacinadas e não vão usar este serviço”, defende.

“Ora, a quase totalidade de pessoas que vão entrar nestes espaços estão totalmente vacinadas e, portanto, exigir-lhes o certificado não traz mais valias”, sublinha adiantando que “será muito mais vantajoso o teste, medição da temperatura ou até mesmo a realização de um pequeno inquérito epidemiológico”.

Para além disso, segundo o médico de saúde pública devia ter sido imposto um limite de lotação em bares e discotecas, o que não aconteceu. “Acho que seria ideal nesta fase de reabertura, apenas permitir entre 50% a 60% da lotação, para que houvesse espaço e as pessoas pudessem conviver em grupos com segurança e não todas ao monte”, conclui.

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