Dia Nacional do Estudante: “Tecnologia é a nova literacia do futuro”, defende Lívia Oliveira

No Dia Nacional do Estudante mais tecnológico de sempre por causa da pandemia, Lívia Oliveira, coordenadora de marketing na Assembly, uma escola de Alvalade que utiliza as tecnologias como principais ferramentas nos métodos de ensino, responde por e-mail a questões sobre os desafios na adequada preparação dos alunos.

 

Têm sido muito referidas as influências nocivas que a pandemia provoca nos alunos em função da obrigatoriedade do ensino à distância. De que consequências estamos a falar?

Para além das consequências oriundas da ausência de adaptação do sistema de ensino tradicional para o universo digital, a impossibilidade de contactos e rotinas com colegas de turmas e professores é uma consequência de grande impacto psicossocial para os alunos.

 

Que características principais se identificam na classificação do que é ser estudante em tempos de covid-19?

Todo o sistema de educação atual tem sofrido bastante com as necessárias adaptações digitais geradas pelo confinamento oriundo da pandemia de covid-19. Com tudo isso a acontecer, surgem dúvidas e inseguranças quanto às necessárias escolhas a serem feitas por todos os responsáveis de educação para garantir um próspero futuro aos nossos estudantes.

Importa, pois, trazer para o sistema de ensino novas valências e maneiras de pensar que privilegiem o que as crianças e jovens de hoje vão precisar enquanto profissionais do amanhã: competências digitais, capacidade de resolução de problemas, pensamento criativo e trabalho colaborativo são disso exemplo. Atualmente, mesmo quando as escolas ministram disciplinas e matérias relacionadas com as competências digitais, o foco é a utilização da tecnologia — como criar um documento ou uma apresentação — em vez de ensinar os mais pequenos a pensar tecnologicamente ou a estimulá-los a criar tecnologia.

Eis o maior desafio: redefinir a forma como preparamos as crianças e jovens de hoje para acompanharem a evolução das competências necessárias relativas ao novo mercado de trabalho, tendo presente que a tecnologia é a nova literacia do futuro.

 

Até que ponto preparar as gerações futuras para a tecnologia desumaniza os estudantes?

A aprendizagem da tecnologia vai além do conhecimento técnico e serve também de estímulo à curiosidade, desenvolve a capacidade de resolver problemas, promove a criatividade e ensina desde cedo aos mais pequenos como aprender a aprender.

Embora as competências tecnológicas e digitais sejam o maior diferencial na preparação de qualquer profissional do futuro, há outras valências que não podem ser negligenciadas quando se olha para as ausências do presente e já se planeia o futuro: a comunicação, a interpretação, o pensamento crítico e a capacidade de criar e inovar. As tarefas relacionadas com matemática, ciência e engenharia estão vulneráveis a qualquer nova tecnologia e, por isso, tem de haver também uma preocupação de todo o sistema de ensino para as soft skills e outras competências transversais que desenvolvem um profissional por completo.

Neste sentido, é seguro afirmar que o uso crescente da tecnologia em tarefas rotineiras vai exigir ainda competências sociais, lógicas e comportamentais que complementem as habilidades puramente técnicas – a capacidade de comunicação, o pensamento crítico, a identidade visual e o raciocínio lógico vão tornar-se ainda mais importantes no sucesso de qualquer estudante que deseje um futuro profissional promissor.

Quando assumimos como missão na Assembly formar os líderes de amanhã, adotámos também a tecnologia como algo mais complexo do que uma mera ferramenta técnica: consideramo-la o motor que estimula o raciocínio lógico, potencia a autonomia e oferece novas formas de pensar e fazer, essenciais ao futuro que está a acontecer hoje, no presente. Desenvolvemos então na Assembly uma metodologia própria, pois acreditamos que só a combinação destes dois universos — de um lado, a tecnologia, do outro, as competências transversais — poderá trazer um futuro próspero a todos os que irão dar brevemente os primeiros passos neste mercado de trabalho em constante transformação.

 

Uma das propostas de estratégia no combate a um flagelo como a violência doméstica reside no ensino para a afetividade e não tanto para a competitividade: em que medida esta recomendação faz sentido?

A Assembly tem uma metodologia inovadora e transdisciplinar. Além do foco em tecnologia, onde privilegia áreas como a Robótica, o Design, a Programação e o Gaming, a escola também trabalha de forma sistemática diversas competências como o trabalho de equipa, o pensamento crítico, a curiosidade, a capacidade de resolver problemas e a autoconfiança. Os alunos aprendem, programam e jogam mas também experimentam, criam, discutem, inovam, brincam, erram e acertam. Todos são constantemente estimulados a tentativa-erro, promovendo a descoberta, a autonomia e a que, antes de pedirem ajuda a um professor, peçam ajuda uns aos outros, construindo e pensando em conjunto.

Não nos limitamos a ensinar tecnologia como uma matéria isolada; focamo-nos sim na forma de aprender, no processo educativo e numa metodologia que tanto valoriza a teoria como a prática. Trabalhamos para que os nossos alunos sejam tecnológicos, se mantenham curiosos e que explorem a tecnologia nas suas mais variadas vertentes: no fazer, no pensar e no sentir. Juntamente com a tecnologia, trabalhamos as suas competências comportamentais para que não sejam apenas definidos pelo que sabem; mas, acima de tudo, por aquilo que são: futuros líderes da mudança positiva na nossa sociedade.

 

Qual é o nível de literacia tecnológica dos alunos por comparação com a média dos adultos em Portugal?

Uma criança que ingresse hoje na Escola Primária irá terminar o Ensino Superior em meados da década de 2030 e terá, provavelmente, uma carreira para além de 2060. Na ausência da bola de cristal e da segurança de sabermos exatamente as necessidades da força laboral nesse futuro, conseguimos já supor (e afirmar) que as exigências serão obviamente diferentes das atuais e que a mudança de paradigma irá continuar com os avanços tecnológicos cada vez mais acelerados. Porém, o plano curricular da maioria das escolas dos tempos atuais continua a focar os mesmos assuntos lecionados em 1990 — matérias essenciais à formação de todos os futuros adultos mas que não abarcam tudo o que importa conhecer neste mundo em constante mudança.

 

Que profissões estão mais em risco de desaparecer e quais as que estão a surgir em força, prevendo-se que ganhem ainda mais sentido nos próximos anos?

É inegável que o mercado de trabalho está em profunda reestruturação e muitas das profissões que já existiram hoje desapareceram ou foram substituída por máquinas/robots.

Além disso, muitas outras surgiram ou foram automatizadas atualmente e outras tantas vão ainda ser criadas ou enfrentar mudanças profundas na forma como são executadas.

Por isso mesmo, o que acreditamos na Assembly é que, mais importante do que prever uma ou outra profissão que irá desaparecer ou ser criada, é termos a certeza de que o domínio de tecnologias disruptivas como a automação, a inteligência artificial, a robótica, a realidade virtual ou o machine learning passa a ser um fator amplamente diferenciador e fará a diferença no sucesso profissional de quem agora as aprende.

O debate atual deve ser centrado em responder o que o sistema de ensino tradicional tem feito no sentido de preparar as novas gerações para prosperar neste novo mundo onde a tecnologia será o centro de todas as coisas.

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