Dia Mundial do Sono: “Seria ótimo que os portugueses gostassem mais de dormir”, defende Teresa Rebelo Pinto

Sabendo-se que os adultos devem dormir entre sete a oito horas por dia e as crianças pelo menos dez, em tempo de pandemia torna-se ainda mais importante abordar as consequências de noites mal dormidas e dos problemas que podem ser causados por se dormir pouco. Psicóloga do sono, Teresa Rebelo Pinto responde por e-mail e não hesita: “A má qualidade do sono provoca uma deterioração global na saúde física e mental, aumenta o absentismo e o número de acidentes de trabalho, reduz a produtividade.”

 

Quais são os distúrbios de sono mais frequentes?
A insónia é o distúrbio de sono mais comum e afeta cerca de 30% da população. Embora sejam menos prevalentes, existem outras patologias do sono que implicam tratamento adequado, como as apneias, os síndromes de atraso de fase ou a narcolepsia.

Que danos podem causar?

A privação de sono (voluntária ou involuntária) traz riscos sérios no que diz respeito à saúde, à segurança e à qualidade de vida. Quem dorme pouco tem mais probabilidade de desenvolver problemas cardiovasculares, metabólicos e de saúde mental. O número de lapsos e acidentes graves aumenta com a privação de sono, os comportamentos de risco e as decisões impulsivas aumentam. As pessoas arriscam mais, ponderam menos as decisões, o que pode ser catastrófico. As doenças do sono têm características muito específicas, podem ser de natureza mais psicofisiológica, do foro respiratório ou de origem neurológica. Todas elas estão descritas e têm terapêuticas apropriadas, que nem sempre implicam medicação. Não tratar um distúrbio do sono pode ser dramático e reduzir a esperança de vida.

Existem dados quanto a custos para a economia relacionados com os problemas de sono?
Sim, os problemas de sono têm um grande impacto na economia. Alguns estudos apontam para milhões de dólares por ano associados a problemas de sono. É fácil de perceber, já que a má qualidade do sono provoca uma deterioração global na saúde física e mental, aumenta o absentismo e o número de acidentes de trabalho, reduz a produtividade.

Quem está mais sujeito a sofrer desses problemas?
Depende das patologias. As mulheres dormem pior em geral, o que pode estar relacionado com as alterações hormonais, e têm mais probabilidade de ter insónias quando comparadas com os homens. Os homens têm mais risco de apensa obstrutiva (exceto depois de as mulheres atingirem a menopausa, altura em que esse risco é idêntico para homens e mulheres). Os jovens têm mais probabilidade de sofrer do síndrome do atraso de fase do ritmo sono-vigília. As pessoas de nível socioeconómico mais baixo têm habitualmente pior qualidade do sono.

Quais são as formas mais indicadas de evitar os problemas e de terapia?
O melhor que podemos fazer pelo sono é protegê-lo todos os dias. Tal como olhamos para a nossa alimentação e exercício físico, seria ótimo que os portugueses valorizassem mais os seus hábitos de sono. E que gostassem mais de dormir, que não sentissem o sono como uma perda de tempo. Quando as dificuldades relacionadas com o sono se tornam crónicas, é importante procurar ajuda especializada, pois esta é uma área complexa. O diagnóstico e tratamento adequado das patologias do sono deve ser feito por especialistas na matéria, com certificação na área. Existem já várias equipas multidisciplinares, em hospitais e clínicas especializadas (tanto no setor público como privado), com profissionais competentes para o efeito. A Psicologia do Sono é uma área em expansão em Portugal e a equipa que coordeno na minha clínica faz um acompanhamento personalizado dos doentes desde a primeira consulta de sono. Ajuda a identificar qual a melhor opção terapêutica para cada caso, encaminha e faz a ligação entre os especialistas que podem ser necessários para o tratamento eficaz (neurologistas, psiquiatras, pneumologistas, otorrinos,
nutricionistas, fisioterapeutas, dentistas, entre outros).

Na sua experiência de trabalho, quais foram os casos mais graves que avaliou?
Já tenho recebido pessoas que dormem mal há 30 anos, que tiveram acidentes de carro gravíssimos (por terem adormecido ao volante) e estão vivos por milagre. Já atendi pessoas que traziam uma folha A4 com uma lista infindável de medicamentos que tinham experimentado para dormir no último ano, outros que se tornaram alcoólicos a tentar dormir com a ajuda de whiskey. Todos os casos são relevantes e intervir no sono pode mesmo mudar a vida das pessoas. Para mim, as situações mais graves são aquelas em que poderiam ter sido evitadas situações traumáticas caso tivesse havido uma intervenção precocemente.

Por quanto tempo podem perdurar os efeitos das perturbações de sono caso não sejam sujeitos a tratamento?
As consequências podem ser fatais, podem ficar para sempre.

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