Dia Mundial da Água: Miguel Lemos Rodrigues afirma que “em Portugal a água para consumo humano é de excelência”

Administrador executivo da Águas de Gaia, uma das maiores empresas do género no país, Miguel Lemos Rodrigues faz parte da Direção da Associação Europeia de Operadores Públicos de Serviços de Água e Saneamento, sendo especialista em temas como água, saneamento, ambiente, resíduos ou clima. Respondendo a questões via e-mail, o responsável deixa pistas para se melhorar a situação global da água em Portugal e além-fronteiras, sublinhando ainda a importância do regresso dos EUA ao Acordo de Paris e a relevância do comportamento chinês quanto a este assunto.

 

Qual é a situação atual dos recursos hídricos em Portugal em termos de qualidade e de disponibilidade?

Portugal é hoje um exemplo em todo o mundo em matéria ambiental. No que diz respeito à gestão da água, Paul Reiter, antigo Diretor Executivo da IWA (The International Water Association), chegou mesmo a referir-se à evolução registada no nosso país como o “milagre português oferecido ao mundo!” Esta afirmação deve encher-nos de orgulho, mas significa que houve uma verdadeira “revolução” ambiental nas últimas décadas.

Se, em termos ambientais, a despoluição das linhas de água, dos rios e da costa atlântica é uma evidência, também e fundamentalmente a qualidade da água para consumo humano é digna de registo. Em Portugal a água para consumo humano é de excelência! Segundo o último relatório da ERSAR (entidade reguladora) o nosso país mantém “o indicador de água segura na ordem dos 99% podendo garantir-se à população que pode beber água da torneira com confiança”, e em muitos concelhos, Gaia é um deles, este indicador chega a ser de 100%.

No que diz respeito à disponibilidade, estima-se que quase dois terços da população mundial poderão vir a sofrer com a falta do seu abastecimento dentro de quatro anos, a escassez e a seca (que são conceitos diferentes) são, pois, um problema global. Portugal também tem registado, em alguns anos, alguns episódios preocupantes, principalmente no sul do país, isto é, em anos de seca meteorológica reflete-se na disponibilidade de água nas albufeiras. Felizmente que, segundo o Sistema Nacional de Recursos Hídricos, no último dia do mês de fevereiro  e comparativamente ao último dia do mês anterior verificou-se um aumento do volume armazenado em 11 bacias hidrográficas: das 59 albufeiras monitorizadas, 36 apresentam disponibilidades hídricas superiores a 80% do volume total e apenas quatro têm disponibilidades inferiores a 40% do volume total.

 

Comportamentos de cada um, ordenamento do território, cuidados a ter com os rios são apenas algumas das vias para tornar a poupança de água uma realidade. Em que ponto estamos de desenvolvimento de cada um deles?

Como referi anteriormente, evoluímos muitos nesta área enquanto país. Isto é, não só evoluímos nas políticas públicas, como na mudança comportamental da população. Hoje há uma evidência enorme na preocupação com o meio ambiente e naturalmente no que aos recursos hídricos diz respeito. Quer do ponto de vista legislativo, quer do ponto de vista do trabalho no terreno, nomeadamente ao nível autárquico. As autarquias tiveram e continuam a ter um papel fundamental nesta mudança, por exemplo os investimentos na recolha e tratamento das águas residuais, na despoluição das linhas de água, nos vários projetos que visaram uma melhoria muito significativa para o meio ambiente. Por seu turno, os cidadãos hoje são também autênticos “guardiões” da natureza nos comportamentos “amigos do ambiente” mas também porque rejeitam e censuram posturas que ponham em causa a sustentabilidade ambiental.

É ainda importante referir, que principalmente nas cidades, cada vez mais há que ter em atenção o que se designa por eventos extremos, períodos curtos, mas de intensa pluviosidade ou temperaturas acima da média e valores de precipitação muito baixas.

 

A disparidade de tarifas relativas ao consumo da água e saneamento entre diferentes concelhos é uma questão que causa enormes dificuldades aos consumidores. Estão a ser adotadas medidas que permitam tornar o sistema cada vez menos desigual ou é o contrário que se verifica?

Bom, no que diz respeito às tarifas, efetivamente há disparidades entre sistemas. A meu ver o setor tem de ser sustentável e autossuficiente e, ao mesmo tempo, com preços no consumidor economicamente justos e acessíveis. No entanto, é uma realidade que a sustentabilidade de um sistema de fornecimento de água ou de uma rede de saneamento em grandes aglomerados urbanos não é igual a zonas de baixa densidade e isto provoca desvios que acabam por ser refletidos nas tarifas. É um problema geográfico e estrutural e que não é de fácil solução, a não ser com mecanismos de solidariedade, como já acontece em alguns casos. No entanto, julgo que o grande desafio é mesmo tornar cada sistema o mais eficiente possível, e neste particular sim, têm sido adotadas várias medidas, têm sido feito vários investimentos para melhorar o desempenho dos serviços de água e saneamento com o objetivo de promover a sua eficiência. Mas ainda há um longo caminho a percorrer porque ainda se registam de facto algumas disparidades.

 

O consumo não sustentável de água na agricultura é um dos grandes desafios que se colocam: que caminhos podem seguir-se para o resolver?

Sem dúvida! Não só é desafiante a prática da agricultura sob condições que referi em cima, temperaturas acima da média e valores de precipitação muito baixas, ou seja, períodos de seca, como também porque efetivamente a agricultura é o setor económico que mais volume de água consome.

Mais uma vez, a questão da eficiência é fundamental e o investimento na redução das perdas de água contribuem também para a diminuição da pegada hídrica. No entanto, sendo a agricultura o setor de atividade fundamental, o mesmo deve cada vez mais ter em conta o tipo de culturas, a região e quantidade de água disponível, assim como combinar as melhores técnicas de rega, as estratégias de irrigação e o tipo e cobertura do solo.

Por fim, mas igualmente muito importante, talvez até o mais importante: substituir sistemas lineares por sistemas geradores de economia circular, nomeadamente no que diz respeito ao aproveitamento da água.

 

As alterações climáticas são outra fonte de problemas não só em Portugal, mas à escala mundial: estamos preparados para enfrentar as suas consequências nas duas realidades?

Julgo que pelo menos estamos mais conscientes do problema e, para resolver um problema, primeiro é preciso admitir que ele existe! As alterações climáticas são um problema global e como tal só é possível enfrentá-lo com o compromisso e esforço de todos. É por isso fundamental que os países cumpram com o estipulado no Acordo de Paris, que as metas nacionais e internacionais para a descarbonização sejam cumpridas e que os vários países implementem ações concretas com vista à manutenção do aumento da temperatura abaixo dos 2.º C.

Para se ter uma noção do problema, anualmente são lançadas para a atmosfera 51 mil milhões de toneladas de gases com efeito de estufa, esse valor tem de ser zero!

Portugal foi dos primeiros países a apresentar um Plano Nacional para a Neutralidade Carbónica da Economia Nacional e o compromisso nacional é atingir a neutralidade até 2050. É, pois, um bom exemplo.

 

Os níveis de poluição e detritos, sobretudo de plástico, que se encontram espalhados pelos oceanos geram profundas preocupações. É uma batalha que o Planeta vai ganhar ou estamos numa estrada sem saída?

Acredito que vamos ganhar! Mais uma vez com o compromisso e contributo de todos, governos (nacionais e locais), indústria e cidadãos. Acreditar que vamos ganhar não significa que “despreze o adversário”, pelo contrário é uma luta difícil, mas acredito mesmo que vamos ganhar se todos mudarmos a forma de produzir e consumir e, claro, mais uma vez as políticas são muito importantes mas os comportamentos também.

 

O regresso dos EUA ao Acordo de Paris, sendo boa notícia, não será suficiente para resolver todas as questões que se colocam não só no plano da água, mas numa perspetiva mais geral de ecossistemas e ambiente. Que influência pode exercer a Administração Biden como modelo para outros grandes poluidores como a China ou a Índia, por exemplo?

Antes do regresso dos EUA ao Acordo de Paris após a eleição do Presidente Biden, que é em si uma boa notícia pela importância que os EUA representam, e por incrível que pareça um dos países que mais têm investido na descarbonização da economia é a China. A China, durante o período que os EUA estiveram fora do acordo, apoiaram-no e incentivaram-no. Em setembro de 2020, o Presidente chinês, Xi Jinping, declarou à Assembleia das Nações Unidas a meta de chegar ao pico das emissões de CO2 antes de 2030 e de atingir a neutralidade carbónica antes de 2060. É uma enorme mudança de paradigma que fez com que os Estados vizinhos seguissem o mesmo exemplo nas semanas seguintes, com o Japão a anunciar a meta de zero emissões de gases com efeito de estufa; e a Coreia do Sul, a neutralidade carbónica até 2050. Já a Índia tem sido bastante “tímida” neste processo e claro que é já um importante ator, mas acredito que as crescentes pressões internacionais venham a colocar a India também na rota da descarbonização.

Diria que são tão importantes as notícias vindas agora de Washington com o regresso ao Acordo de Paris, como as vindas de Pequim com o 14.º Plano Quinquenal e o Plano de neutralidade carbónica. Não tenho nenhuma dúvida de que estes serão os temas relevantes na agenda da comunidade internacional, e ainda bem!

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