De “nazis” a “ímpios” e “ateus”: Rússia muda narrativa interna para justificar invasão da Ucrânia

A Rússia está a transformar a narrativa sobre a guerra na Ucrânia, que considera ser uma “operação militar especial” para “desnazificar” o país vizinho, numa tentativa que pode ser vista como uma forma de revigorar o esforço militar.

Para isso, o Kremlin terá produzido dois manuais de normas nos quais insta – ou ordena – que os órgãos de comunicação social russos controlados pelo Estado passem a designar os ucranianos como “ateus” e “ímpios”. Com essa transformação, a retórica oficial adquire contornos religiosos que poderão permitir à Rússia enquadrar o conflito com uma “guerra religiosa”.

Avança o ‘El Confidencial’, citando o portal independente de notícias ‘Meduza’, que os manuais chegaram às redações dos jornais e emissoras públicas russas em julho e que recomendam que os programas e artigos, que atuam como câmaras de eco da propaganda do Kremlin, comecem a traçar paralelos entre o que hoje vemos na Ucrânia e os conflitos entre os primeiros russos e os povos ocidentais na região anteriormente conhecida como Rus, que é atualmente Kiev e que registos históricos apontam como sendo o berço da nação russa.

As orientações agora divulgadas descrevem a invasão da Ucrânia como uma ação preventiva contra as ações de um Ocidente coletivo que tem vindo a desferir sucessivos ataques contra a Rússia ao longo de milénios, com o objetivo de fragmentá-la, pilhar os seus recursos naturais e dizimar o cristianismo ortodoxo. Devemos ter presente que a Igreja Ortodoxa russa é um pilar fundamental do aparelho do poder da Rússia e detém uma influência considerável sobre as estratégias de segurança do país, sendo o Patriarca Kirill um aliado muito próximo do Presidente Vladimir Putin e, segundo alguns relatos, um ex-agente do serviço de informações soviético KGB.

Os manuais ditam que a imprensa controlada pelo governo deve afirmar que os militares ucranianos realizam “rituais satânicos”, praticando sacrifícios humanos, e que usam crianças e mulheres como escudos humanos. Os porta-vozes oficiosos do Kremlin na comunicação social devem também defender que a guerra na Ucrânia tem como fim “combater os ateus” ucranianos, que, dizem as orientações, são “violadores, ladrões e assassinos” que “não acreditam em nada” e que, por isso, “não têm qualquer obrigação moral para com outras pessoas”.

O recurso à memória histórica, e por vezes à sua manipulação e até deturpação, tem sido uma prática habitual do poder político da Rússia. Um exemplo recente é o do discurso de Putin, na semana passada, no âmbito das celebrações da Marinha russa, em São Petersburgo, em que o líder do Kremlin evocou a imagem do czar Pedro, o Grande, para enquadrar o novo posicionamento estratégico do país na frente marítima.

Tendo a Igreja Ortodoxa um poder expressivo na política russa, não será de estranhar que seja agora colocada num plano mais dianteiro na narrativa construída em torno da guerra na Ucrânia.

Recorrendo a essa variante religiosa, Moscovo procura reforçar a noção de que a Ucrânia e a Rússia são uma mesma nação unida sob os auspícios da fé ortodoxa, sendo que mais de 70% da população ucraniana se identifica com essa religião.

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