Cuca Roseta: “Não compreendo porquê tanta falta de apoio à Cultura”

A fadista Cuca Roseta mostra-se, em entrevista por e-mail, muito preocupada com a evolução da pandemia e teme pelos danos que a crise já está a provocar, entre os quais “falências e desemprego”. Considerando que este é um “tempo de recolher, de repensar, de reajustar, de olhar para dentro, de parar”, confessa que as redes sociais têm sido uma das poucas formas de manter contacto com o seu público e classifica a experiência de ter cantado enquanto circulava de autocarro como algo de “incrível” e que “nunca mais” esquecerá.

 

Como analisa a situação do mundo da Cultura em Portugal e que avaliação faz à forma como o Governo tem tratado o setor? 
Não compreendo porquê tanta falta de apoio à Cultura. É muito preocupante e triste.

Está preocupada com a situação de Portugal, sobretudo em setores como a Cultura, o turismo, a restauração e a hotelaria, alguns dos mais atingidos pelos efeitos da pandemia?
Estou muito preocupada, naturalmente, com a situação de Portugal e do mundo. A primeira paragem já tinha sido suficientemente grave e agora uma segunda paragem. Muitos irão à falência, muitos terão de fechar, haverá muito desemprego, e naturalmente uma crise. É extremamente preocupante.

 

Estou muito preocupada, naturalmente, com a situação de Portugal e do mundo. A primeira paragem já tinha sido suficientemente grave e agora uma segunda paragem. Muitos irão à falência, muitos terão de fechar, haverá muito desemprego, e naturalmente uma crise.

 

Como define este tempo de pandemia e de que modo foi afetado o seu dia a dia em função do coronavírus? 
É tempo de recolher, de repensar, de reajustar, de olhar para dentro, de parar. Acredito que tudo tem um sentido maior na vida. Não devemos comparar o que temos com o que tivemos ou o que gostaríamos de ter. É um tempo diferente que trará muita dor naturalmente, mas também trará muita consciência, valorização. Percebemos que não podíamos fazer um bolo com os mesmos ingredientes que costumávamos ter, tivemos de fazer um bolo com os ingredientes que havia. Há que agarrar o que há e fazer com o que há. Há que erguer a cabeça e tentar ser feliz com aquilo que nos é dado. Não é a comparação que traz felicidade, é a simplicidade e a gratidão.

 

 

Tem revelado uma grande preocupação em manter o contacto com o seu público e realizou diversas ações nesse sentido, como por exemplo aquele concerto em que circulou de autocarro ou o concerto 360 no castelo de São Jorge. Como foram essas experiências e que desafios representaram? 
Foram experiências incríveis e únicas que jamais esquecerei! De uma emoção, de uma vontade, de uma alegria por parte das pessoas que se viam confinadas e preocupadas, a poderem receber um bocadinho de música que lhes consolasse os corações por momentos. Ao palco do camião chamei-lhe o palco do amor, nunca tinha visto os meus músicos todos a emocionarem-se ao mesmo tempo em palco e nunca mais verei. Eram concertos cansativos que duravam três horas de pé em movimento e a dizer adeus e a sorrir a cada janela que aparecia, mas era de uma gratificação e de uma alegria podermos estar ali a tocar e a levar até à casa das pessoas música e alegria.

 

Ao palco do camião chamei-lhe o palco do amor, nunca tinha visto os meus músicos todos a emocionarem-se ao mesmo tempo em palco e nunca mais verei.

 

“Meu” é o seu mais recente disco e a Cuca é a cantautora de todos os fados: até que ponto considera fundamental cantar temas que sejam da sua autoria?
Se o fado é a busca pela verdade, compondo e escrevendo tantos temas desde tão nova era algo natural vir um dia a cantá-los. Não era assim tão comum neste género musical o intérprete cantar e compor os seus próprios fados. Ficámos habituados, na história do fado, a ter poetas e compositores que traziam as suas canções ao fadista. Amália escreveu alguns dos seus fados e que dom magnífico ela tinha. Mas vemos uma nova geração a tornar-se mais independente e a criar. Em busca dessa genuinidade, é verdade. É o futuro do fado? Quiçá…

 

 

Há algum dos temas incluídos que prefira? Porquê? 
Todos são especiais para mim, é difícil fazer uma escolha. Gosto especialmente do que se chama “Meu”. Não sei, emociona-me muito.

 

Do ponto de vista musical, de que modo se distingue este trabalho do que tem feito até aqui? 

Este parece-me mais tradicional, mais orgânico e o meu disco mais português de sempre, não só fado, mas português. Do fado ao folclore, com um tema a tocar África e outro a tocar pop.

Este parece-me mais tradicional, mais orgânico e o meu disco mais português de sempre, não só fado, mas português. Do fado ao folclore, com um tema a tocar África e outro a tocar pop.

 

Em 2020, ano de centenário de Amália Rodrigues, lançou um álbum de homenagem e agradecimento a Amália. Como foi recebido pelo público?

Maravilhosamente! É um orgulho e uma alegria enorme finalmente gravá-lo, pois já queria fazê-lo há muitos anos. Fazia muita falta à minha carreira um disco de homenagem à grande inspiração da minha carreira.

 

 

Sempre afirmou que Amália é a sua principal inspiração: de que forma é exercida essa influência no trabalho que tem apresentado? 
Sempre cantei Amália nos meus concertos e sempre cantarei, mas Amália também me inspira no espírito que tinha, na coragem, no trabalho, na atitude para não fugir ao seu instinto.

 

Sempre cantei Amália nos meus concertos e sempre cantarei, mas Amália também me inspira no espírito que tinha, na coragem, no trabalho, na atitude para não fugir ao seu instinto.

 

Até que ponto cantar “Lágrima” apenas acompanhada pelo piano lhe coloca um desafio diferente dos momentos em que tem acompanhamento mais tradicional? 
Não me parece ser um desafio, parece-me ser algo com mais espaço que dá mais tempo para escutar e sentir a palavra, assim como a lindíssima melodia de Carlos Gonçalves. Ali acontece Fado só com voz e piano, aliás são os temas em que se conseguiu mais emoção no disco, talvez por serem gravados ao mesmo tempo e por isso sentidos ao momento.

 

Quando canta temas como “Lágrima”, “Com que Voz”, “Vagamundo” ou “Barco Negro”, para onde seguem os seus pensamentos? 
Para a história que estou a contar, para o poema que estou a declamar: “Lágrima”, um amor correspondido; “Com que Voz”, um amor fora de tempo; “Vagamundo”, um amor separado, e “Barco Negro”, um amor perdido.

 

 

Que memórias guarda dos seus primeiros tempos a cantar o fado?

Muita nostalgia, mas sempre me dediquei muito, sempre quis dar o meu melhor, com a diferença de que estava a dar os primeiros passos e é preciso um caminho para amadurecer. E continuará a ser preciso até ao fim da vida, pois quem acha que já sabe tudo parou de evoluir, parou de conseguir dar.

 

Quando recorda a sua interpretação do tema “Rua do Capelão” no filme de Carlos Saura, o que relembra com mais nitidez? 
É uma música que foi gravada de forma genial por Carlos Saura intemporal, deixando o minimalismo ou o “less is more” falar por si. Uma guitarra portuguesa é uma voz. Que beleza, ainda estava a começar a cantar, mas acho maravilhosa essa interpretação. Simples e despretensiosa. A única que vejo do meu início e a que não ponho defeitos. Um momento único da minha vida e que jamais esquecerei. Sou fã de Carlos Saura e trabalhar com ele foi uma honra imensa, um momento que jamais esquecerei.

 

Sou fã de Carlos Saura e trabalhar com ele foi uma honra imensa, um momento que jamais esquecerei.

 

Em setembro participou numa cerimónia de ligação entre a meditação e o fado. Sendo praticante de yoga há seis anos, qual é a importância que essa prática exerce na sua vida do dia a dia? 
O yoga faz parte de mim e da personalidade que mais gosto em mim. A primeira coisa que faço quando acordo é yoga e meditação e só depois começo a viver, isto é, a trabalhar e a fazer o que tenho a fazer no dia a dia. Primeiro conectar-me comigo mesma e com o universo e depois começar a ser. Dou mais, sinto-me mais equilibrada, mais serena, mais feliz, mais criativa, com mais discernimento, sou mais tudo. Hoje em dia não abdico da prática do yoga. Foi uma experiência maravilhosa, poder cantar fado que é uma música que dizem ser da alma, depois de termos a alma preparada a receber sem distrações da mente, pois é isso que faz a prática da meditação.

 

 

Tem presença regular nas redes sociais. Tendo em conta o lado negativo que as redes comportam, a sua participação tem recebido mais sinais positivos do que negativos? 
Sim, não foi fácil adaptar-me às redes sociais, sou uma pessoa muito livre e selvagem, mas hoje reconheço a importância que tem para estar perto do meu público, é fantástico podermos ter acesso ao que eles sentem e pensam e tem sido uma grande ajuda para a minha carreira, termos o feedback direto daquilo que fazemos. Na pandemia, então, foi a única forma de conexão com o meu público. Hoje vejo como uma ferramenta essencial. Não tenho noção de sinais negativos. Muito de vez em quando aparece uma ou outra pessoa a dizer uma coisa desagradável, mas eu apago, pois normalmente são pessoas que não estão bem consigo mesmas, é uma energia que não se deve deixar entrar.

Muito de vez em quando aparece [nas redes sociais] uma ou outra pessoa a dizer uma coisa desagradável, mas eu apago, pois normalmente são pessoas que não estão bem consigo mesmas, é uma energia que não se deve deixar entrar.

 

*As fotos utilizadas pertencem ao site oficial da cantora.





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