Crise de energia: O inverno do nosso descontentamento

A Europa está a preparar-se para um longo e dispendioso inverno, com uma crise energética que vem do Oriente e que ameaça a tornar os países ocidentais reféns da Rússia.

“Este é o inverno do nosso descontentamento”, escreveu há 500 anos William Shakespeare, na peça Ricardo III, numa frase a que, hoje, se poderia acrescentar a palavra “energético”, para ilustrar o tom sombrio com que a Europa olha para as frias noites que se aproximam, perante a escassez de combustíveis e a inflação galopante dos preços do petróleo e do gás.

Recentemente, o Presidente russo, Vladimir Putin, arriscou um prognóstico que vários especialistas admitem ser realista: o preço do barril do petróleo pode subir aos 100 dólares (cerca de 85 euros) nos próximos meses, alertando para os sinais de forte crescimento de procura sobretudo a partir da China.

A declaração de Putin veio acompanhada de uma mensagem de conforto para os países europeus, com a promessa de que a Rússia não faltaria aos seus compromissos no fornecimento de gás, um produto que teve uma subida de 600% nos últimos 12 meses.

Em Portugal, os primeiros sinais da crise energética europeia fizeram-se sentir no anúncio de aumentos violentos dos combustíveis, levando o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a fazer um outro prognóstico, citando pareceres da Comissão Europeia: a inflação energética deve estabilizar e arrefecer com a chegada da primavera, no final do primeiro trimestre do próximo ano.

Contudo, vários analistas consultados pela Lusa são unânimes em considerar que esta crise energética tem muitas origens e ainda poucas soluções, podendo fazer prolongar os seus efeitos por vários anos e desestabilizando politicamente várias regiões.

Depois de um inverno suave na Europa, em 2020, que fez a procura de gás natural cair cerca de 2%, a recuperação económica no momento em que a crise pandémica parece estar mais controlada deve fazer crescer a procura do “ouro azul” em 3,6%, até ao final deste ano, de acordo com previsões da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), que antecipa um agravamento da procura até 7% em 2024.

“A Europa tornou-se refém da Rússia, a nível energético. E Putin vai fazer chantagem com o seu gás e o seu petróleo”, disse à Lusa Timothy Ash, analista da Bluebay Asset Management, uma agência de estratégias alternativas de investimento.

O receio da Europa é que a Rússia feche as torneiras do gás, deixando milhões de lares gelados, num inverno que se antevê muito frio, explicou Ash, alertando para os riscos de desestabilização política que esta situação pode provocar.

“Há muitos países reféns de exportadores de petróleo e de gás, que se tornam presas politicamente fáceis para regimes com poucos escrúpulos”, avisa este analista.

A União Europeia (UE) parece não ter uma estratégia coerente e eficaz para lidar com o problema, com os países divididos sobre o uso da energia nuclear, sobre a resposta a dar ao gasoduto Nord Stream 2 – que transporta gás desde a Rússia até à Alemanha – ao mesmo tempo que um recente terramoto no campo de gás de Groningen, nos Países Baixos, obrigou a encerrar aquele que é o maior reservatório europeu de gás natural e décimo maior do mundo.

Por outro lado, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) já anunciou que não tenciona aumentar os níveis de extração, para tentar estabilizar os preços, depois de vários meses de queda de consumo – uma situação decorrente da crise económica provocada pela pandemia de covid-19.

Recentemente, os ministros da Energia da Arábia Saudita e da Rússia emitiram um comunicado conjunto em que se mostravam satisfeitos com os níveis de extração de petróleo, apesar de o crude ter atingido o valor recorde dos últimos três anos, chegando aos 80 dólares (cerca de 70 euros) por barril, mas prometeram estar atentos à evolução da procura, em particular no âmbito do chamado OPEP+, que engloba 23 países exportadores de petróleo.

A IEA estima que a recuperação económica mundial leve a um aumento de procura de cerca de mais 500 mil barris de petróleo por dia, o que pode inflacionar fortemente os preços, tornando a estimativa de 100 dólares por barril (feita por Putin) modesta.

Mas a IEA mostra-se bem mais preocupada com a questão do aumento de procura de gás natural, em particular pela forma como muitos países, em particular na Europa, têm desenvolvido as suas estratégias energéticas à sua volta, sem que haja mecanismos de abastecimento sustentáveis.

“Portugal está mais protegido desta crise de gás, porque tem baixos níveis de consumo e tem também o abastecimento atlântico como alternativa aos gasodutos europeus, dependentes da Rússia”, explicou à Lusa Paulo Rodrigues, investigador de sistemas de distribuição energética na Universidade de Aveiro.

Por outro lado, este investigador chama a atenção para o esforço que Portugal fez nas energias renováveis, nas últimas décadas, embora admita que o país continue vulnerável no campo dos combustíveis, onde nunca esteve perto de ser autónomo.

Enquanto Vladimir Putin desafia a Europa a aumentar os contratos de longo prazo para a compra de gás, na UE a palavra de ordem parece ser “diversificar”, com Bruxelas a incentivar a multiplicação de fontes de energia e a anunciar aumentos de compra de combustíveis fósseis de países mais afastados, como Qatar, Estados Unidos e Argélia.

Dados da Comissão Europeia revelam que o bloco dos 27 depende a 90% de energia externa, com a Rússia – e a sua empresa de monopólio estatal Gazprom – como uma das principais fontes de fornecimento, juntamente com a Noruega, apesar dos avisos dos Estados Unidos, que condenam este excesso de dependência energética relativamente ao Kremlin e aconselham Berlim a deixar cair o Nord Stream 2.

“A Europa tem o mau hábito de não ouvir os meus conselhos ou de aceitar as minhas condições”, lamentava-se recentemente Vladimir Putin, antecipando uma profunda crise energética e referindo-se às dificuldades ocidentais de abastecimento de gás e petróleo para o que chamou de “longo e frio inverno”, que os russos bem conhecem.

Ricardo Jorge Pinto, agência Lusa

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