Crise climática: Canal do Panamá está a ficar sem água. Comércio global pode ficar em risco

O Canal do Panamá, uma obra de engenharia que em 1994 ligou os oceanos Pacífico e Atlântico e que surgiu como uma das principais vias comerciais do mundo, está já a sentir os efeitos do aquecimento global e de um clima mais instável e imprevisível.

Dados da autoridade que gere o canal mostram que 2019 foi o quinto ano mais seco dos 70 anos anteriores, com uma taxa de precipitação 20% abaixo do que seria de esperar. Contudo, não é só a falta de chuva que dificulta a navegação e operações no Canal do Panamá. Também períodos de chuva intensa e tempestades causam perturbações na gestão do tráfego de navios.

O Canal do Panamá é pontilhado por estações que tem como objetivo elevar os navios para que não fiquem presos. Esses sistemas exigem, aponta a ‘BBC’, cerca de 250 milhões de litros de água doce, por cada navio, armazenada em depósitos nas imediações do canal. Com uma média de 37 navios a atravessar diariamente essa via aquática, são precisos mais de nove mil milhões de litros de água doce todos os dias para permitir a travessia dos navios.

Com as temperaturas a subir e a chuva a escassear, um dos responsáveis pela gestão dos projetos de água do Canal do Panamá, John Langman, avança à emissora britânica que estão a ser desenvolvidas soluções para evitar que o canal fique sem água.

Quando em 2019 o canal sofreu com a falta de precipitação, a administração teve de reduzir a quantidade de água que era utilizada para elevar os navios, o que obrigou a que fosse transportada menos mercadoria, para evitar encalhamentos.

Para que esse cenário não se volte a repetir, num quadro de alterações climáticas que aquecem o planeta e reduzem os níveis condensação de água na atmosfera, uma das soluções a ser equacionada é a otimização dos sistemas de armazenamento de água pluviais em lagos artificiais que garanta a disponibilidade de água doce nas épocas mais secas.

Outra solução poderá passar pela construção de uma barragem no rio Indio, a província de Coclé, centro do Panamá. No entanto, isso implicaria o deslocamento de populações que cultivam nas margens desse rio, pelo que a administração do Canal do Panamá já assegurou que irá aplicar a solução que tiver o menor impacte ambiental e social.

Além disso, e considerando que o canal fornece água potável a quase metade da população do Panamá, as autoridades estão a considerar implementar sistemas de dessalinização da água do mar para garantir o caudal do canal.

O especialista Steven Paton, do Instituto Smithsonian para a Investigação Tropical, no Panamá, diz que os dados recolhidos pela autoridade do Canal ao longo dos últimos 142 anos mostra um padrão de precipitação que revela o impacte das alterações climáticas.

Só nos últimos 25 anos, foram registadas “oito das 10 maiores tempestades, os dois anos mais secos”, bem como o período dos três anos consecutivos mais secos desde que começaram os registos nesse local em 1880. “Batemos todos os tipos de recordes”, salienta Paton.

O especialista avança também que em 2022 a época das chuvas no Panamá começou mais cedo do que em qualquer outro ano em registo.

Em 2020, Hugo Contreras, da organização ambientalista Nature Conservancy, afirmava que “nos últimos quatro ou cinco anos, têm sido registados diminuição significativas da quantidade de água” que o canal recebe, citado pela ‘Wired’.

A imprevisibilidade gerada pelas alterações climáticas, com períodos de seca mais intensos e mais duradouros e com tempestades mais fortes, coloca em risco a transitabilidade de uma via de grande importância comercial.

A ‘International Finance Corporation’ estima que passem anualmente pelo Canal do Panamá cerca de 270 mil milhões de dólares em mercadoria, pelo que perturbações que possam atrasar as travessias ou até mesmo, em última instância, tornar inviável a navegação terão fortes impactos económicos, não só no Panamá, mas em vários mercados mundiais.

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