Alice Vieira entre 2020 e 2021: “Saudades de poder beijar e abraçar os meus filhos, os meus netos, os meus amigos”

A escritora e jornalista Alice Vieira faz um balanço de 2020 e antecipa um pouco de 2021.

 

É sempre normal, no fim do ano, pedirem-me textos sobre o que se passou, o que foi bom, o que foi assim-assim.

Nunca me lembro de escrever um texto sobre um ano tão mau.

Como ultrapassámos este ano? Que esperamos que o próximo nos traga?

Para já, foi um ano mau para toda a gente. Não posso fazer a mala , e ir viver para Paris, como fiz há anos — porque está mau em toda a parte. Podemos fugir da polícia, podemos fugir da política, podemos fugir da família, podemos fugir do namorado — mas não podemos fugir de um vírus que anda pelo ar e ninguém vê.

Confesso a minha ingenuidade: quando em março entrámos no primeiro confinamento rigoroso, não pensei que ia durar tanto… Sim, uns meses sem sairmos de casa, tudo bem, mas depois as coisas ficariam melhor. Marquei idas a escolas para junho, estaria em Paris em julho, na Suíça em setembro, e ainda tinha um convite para voltar a Macau.

E de repente foi tudo por água abaixo.

De um momento para o outro comecei a ter uma vida onde não podia fazer o que sempre fiz. A minha vida sempre foi isso: meter-me em comboios e andar por esse país de escola em escola. Havia um revisor do Alfa das 6 da manhã para o Porto que me perguntava sempre: “Então, para que escola vai hoje?” As pessoas até me diziam “tens de aprender a dizer não, tens livros para escrever”, mas eu adorava conversar com os miúdos e os professores.

Mas é evidente que não podíamos ficar eternamente a lastimar-nos e de braços cruzados. Lembro-me sempre de um provérbio chinês que diz: “Se tem remédio, por que te queixas? Se não tem remédio, por que te queixas?”

Eu faço anos no dia 20 de março (a festarola já toda combinada, as pessoas convidadas, o lugar alugado…) e já estávamos em confinamento. Sozinha em casa, lá apaguei uma velita e cantei para mim os parabéns a você… Então recebi um telefonema sem indicação de nome. Em tempos normais não atendo: já tenho uma lista tão grande que não deve ser ninguém importante. Mas atendi (e continuo a atender toda a gente…)

Um senhor que eu não conhecia disse-me que tinha uma prenda para me dar, da parte da minha prima Luísa de Castelo Branco.

Prenda?! Pelo telefone?! Então o senhor era contador de histórias e, por poucos cêntimos, recebia encomendas. As pessoas ligavam-lhe ,e davam-lhe o telefone para onde ele devia ligar e contar uma história.

Garanto que foi um belo dia de anos  .A história era lindíssima  ele era um contador extraordinário. Ficámos ainda um pouco na conversa até que ele me disse que também escrevia poesia, mas que grande poeta tinha sido o seu pai, que morrera há uns cinco anos.

E o diálogo foi rápido.

“E como se chamava o seu pai?”

“Corsino Fortes.”

“Corsino Fortes? De Cabo Verde? Fomos colegas de Faculdade e muito amigos.”

E pronto, ganhei ali novos amigos — e sobretudo a ideia de que, se havia tecnologias, tínhamos de as usar.

Não sei o que teria sido de nós nesta pandemia se não houvesse as tecnologias que há…

Eu e outra amiga aproveitámos o Facebook e começámos a escrever um romance em que cada uma escrevia um capítulo por semana, mas não assinava para ver se no fim as pessoas adivinhavam.  A história passava-se num prédio, donde não se podia sair por causa do confinamento. As pessoas iam à janela, cada uma tinha uma profissão, e lembravam-se do que tinha sido a sua vida, umas felizes outras infelizes, e contavam essas coisas.

O que as pessoas gostaram daquilo, não tem explicação. Tanto assim que uma editora disse logo que publicava!

Depois comecei a fazer videochamadas para amigos que viviam sozinhos, para a minha neta mais velha que trabalha num laboratório em Cambridge (e agora está bem pior do que nós…) , para o meu neto que está a fazer um doutoramento em Chicago — e assim sempre nos víamos e conversámos.

E usei Skype e zoom para entrar e participar em encontros.

Depois comecei a reparar nas pessoas que viviam no prédio à minha frente, começámos a dizer adeus quando vínhamos à janela — e hoje, quando nos encontramos na rua, é como se tivéssemos sido sempre amigos.

E agora ainda tenho uma lista de pessoas mais velhotas, que eu sei que vivem sozinhas e que quase nunca saem porque não têm ninguém que se lembre delas, e vou-lhes telefonando, uma vez por semana, ou mais. E peço a outros amigos comuns que façam o mesmo.

E às vezes através de links no computador vejo concertos (os bilhetes baratíssimos…) porque os artistas estão a passar um tempo muito complicado. E segui em teleconferência uma série de conferências sobre o Padre António Vieira (e só assim consegui acabar a biografia dele que estava a escrever…).

E como a minha profissão não necessita felizmente que eu esteja muito tempo na rua nem com muita gente ao pé de mim — vou escrevendo. E tenho tido tanto trabalho…

(Só um pequeno aparte: quando a pandemia começou eu estava a ser seguida por uma psiquiatra, por causa de uma depressão, angústias, não conseguia suportar os fins de tarde em casa, era horrível. Com o começo da pandemia… passou-me tudo. A minha psiquiatra diz que não entende, que agora é que ela tem ainda mais doentes com depressões…).

O que eu queria poder fazer em 2021 que não fiz em 2020?

Simples, e é mesmo daquilo que eu sinto muita, muita falta: poder beijar e abraçar os meus filhos, os meus netos, os meus amigos. Já não via um dos meus netos há um ano, e quando ele chegou teve de ser um aceno de longe… Isso para mim é o pior de tudo.

E, evidentemente, queria que a saúde voltasse.

A minha avó Gertrudes, que era uma mulher sábia, dizia sempre: “O que é preciso é saúde e paz: o resto a gente faz.”



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