Afeganistão: Fuga do presidente Ghani arruinou acordo com talibãs, diz diplomata norte-americano que liderava negociações

A fuga do ex-presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, em agosto, arruinou um acordo que tinha sido alcançado com os talibãs pouco antes de o grupo radical ter assumido o controlo do país.

Quem o diz é Zalmay Khalilzad, nomeado pelos Estados Unidos para liderar as negociações com o grupo radical, ao Financial Times, na primeira entrevista que dá aos jornalistas depois da retirada das forças ocidentais do Afeganistão.

O diplomata revelou que tinha conseguido um período de duas semanas, durante o qual Ghani deveria ter-se mantido na sua residência até que um acordo sobre as futuras autoridades fosse alcançado no Qatar, até porque os talibãs já estavam à porta de Cabul.

No entanto, o vazio de segurança deixado pela fuga de Ghani a 15 de agosto precipitou a invasão dos radicais islâmicos a marchar, explicou o responsável. E esta situação, por sua vez, obrigou à retirada caótica de civis e militares a que o mundo assistiu, colocando um ponto final nas negociações.

As forças de segurança de Cabul foram dissolvidas com a informação do desaparecimento do presidente, disse ainda Khalilzad.

O diplomata rejeitou ainda as alegações de ter havido um acordo tácito ou que permitiu que os talibãs entrassem no palácio presidencial a 15 de agosto. “O que dissemos foi qual era a missão das forças norte-americanas”, conta, referindo-se à operação de evacuação do aeroporto.

O enviado dos EUA ao Afeganistão sublinhou que chegou a um acordo com os radicais dias antes da entrada do grupo em Cabul, para garantir a segurança da cidade.
Ashraf Ghani ainda não teceu qualquer comentário a esta entrevista.

Ashraf Ghani pediu desculpa pela fuga

No passado dia 8, o ex-presidente pediu desculpa pela sua fuga. “Devo ao povo afegão uma explicação por ter saído de Cabul repentinamente a 15 de agosto, depois de os Talibã terem entrado inesperadamente na cidade [Cabul]”, escreveu num comunicado divulgado no Twitter.

“Saí a pedido da segurança do palácio, que me aconselhou que ao ficar corria-se o risco de se gerarem combates nas ruas horrendos como os vividos durante a guerra civil da década de 1990”, explicou.

“Sair de Cabul foi a decisão mais difícil da minha vida, mas acreditava que era a única forma de manter as armas silenciosas, salvando Cabul e os seus seis milhões de cidadãos”, acrescentou.

Referindo-se às “alegações infundadas” de que, quando saiu de Cabul para os Emirados Árabes Unidos, levou consigo milhões de dólares pertencentes ao povo afegão, Ashraf Ghani garante que “essas acusações são total e categoricamente falsas.”

“A minha mulher e eu temos sido escrupulosos nas nossas finanças pessoais. Declarei publicamente todos os meus bens”, sublinhou, convidando a uma audição ou investigação financeira controlada pelas Naçõs Unidas ou qualquer entidade independente que comprove as suas afirmações.

“É com profundo pesar que vejo o meu capítulo terminar na tragédia semelhante à dos meus antecessores – sem garantir estabilidade e prosperidade. Peço desculpa ao povo afegão por não poder fazer com que termine de maneira diferente”, concluiu Ghani.

Ler Mais


Comentários
Loading...