A ameaça do Captagon: ‘Droga dos jihadistas’ cresce além do mercado árabe e já invadiu a Europa

Depois de um crescimento exponencial no consumo e no mercado dos estupefacientes, quando da eclosão da guerra na Síria, o Captagon, conhecido como ‘a droga dos jihadistas’, continua a ganhar terreno nos países do Golfo Pérsico, tendo já mesmo ultrapassado as fronteiras do mundo árabe e entrado na Europa, onde é cada vez uma maior preocupação das autoridades.

De acordo com o Gabinete Anti estupefacientes de França (OFAST), no último ano registou-se um “crescimento exponencial” do tráfico de droga, demonstrado também pela aparição “de novos produtos estupefacientes”. Ao ABC.es, a OFAST adianta que os serviços policiais das alfândegas em França apreenderam, em 2021, mais 30% de produto estupefaciente, face ao apreendido no ano anterior.

“Apareceram outros produtos no mercado das drogas. À cocaína, canábis, heroína ou ecstasy, junta-se agora o Captagon, uma droga terrível, por várias razões, é muito barata e, sabemos há vários anos, que é um estimulante, uma arma e um mercado crescente para grupos terroristas”, explica um porta-voz da OFAST.

 

O que é o Captagon?

Foi criado pela primeira vez em 1961, como uma alternativa às anfetaminas e às metanfetaminas, usado para tratar casos de défice de atenção, hiperatividade ou depressão. A droga nunca teve aprovação dos organismos reguladores, já que a comunidade médica determinou que as propriedades aditivas do Captagon não compensavam os benefícios clínicos. A produção da droga foi declarada ilegal em 1986, mas continuou a ser fabricada de forma ilícita.

Acredita-se que tenha entrado no Médio Oriente através de gangs da Turquia e Bulgária. Hoje em dia, apresenta-se como comprimidos, de cor castanha, branca, amarelada ou acinzentada, que já raramente contêm fenetilina, substância que as primeiras versões da droga continham. Em vez disso, o Captagon é composto por derivados de anfetaminas, cafeína e outros estimulantes, quinino e paracetamol.

 

Que efeitos causa?

O Captagon é uma anfetamina altamente viciante, que estimula o sistema nervoso central, aumentando a concentração e o estado de alerta, permitindo que os utilizadores passem várias horas acordados.

Se há quem a use nas frentes de guerra no Médio Oriente e relate sentir-se “invencível”, a maioria de quem consome Captagon relata um sentimento de euforia moderada, desinibição e aumento de energia. A substância causa também uma insensibilidade à dor física.

A longo-prazo, o seu consumo causa efeitos secundários graves, como alucinações, náuseas e vómitos, convulsões, pressão arterial elevada, palpitações, problemas respiratórios, distúrbios gastrointestinais, dores nos músculos e articulações, oscilações de humor, sentimentos de raiva e irritabilidade.

 

Como se tornou na ‘droga dos jihadistas’?

Após começar o conflito na Síria, surgiram relatos de que, em ambas as fretes de batalha, os jihadistas estavam a tomar Captagon para aguentarem mais tempo em combate e em período de vigia. Terroristas do Daesh relatavam sentir “poderes sobrenaturais” quando tomavam a droga, o que também levou a um aumento da popularidade do consumo.

Até então, principalmente na Arábia Saudita, era habitualmente utilizada por estudantes antes dos exames e por jovens em festas. Dados de 2015, denotam que 40% dos toxicodependentes que consumiam Captagon no país tinham entre 12 e 22 anos. Acredita-se que a Síria se tenha tornado no ‘ponto-quente’ do Captagon não só devido aos jihadistas terroristas que tomam a droga, como também dado o facto de estar ‘rodeada’ dos principais mercados do Captagon, O Iraque, a Jordânia, o Líbano, o Egito a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos.

Assim, o tráfico de Captagon tornou-se numa importante fonte de receita para grupos jihadistas, como o Hezbollah, que usa os lucros do tráfico de droga para financiar atentados terroristas.

 

Uma ameaça que já chegou à Europa

A Europol já classifica a Síria como “estado narcotraficante” e as autoridades europeias manifestam preocupação crescente com a introdução do Captagon no mercado da Europa. Nos últimos anos, são habituais as apreensões da droga feitas em carregamentos de laranjas que partem de portos no Líbano. Itália e França são grandes consumidoras de produtos agrícolas turcos e libaneses, uma rota comercial que pode permitir uma maior propagação da ‘droga dos jihadistas’.
Por exemplo, o terrorista que encetou o ataque em Nice, França, a 14 de julho de 2016, conduzindo um camião carregado de explosivos que abalroou uma multidão, matando 86 pessoas e ferido outras 458, era consumidor habitual de Captagon.

Segundo o OFAST, esta droga é “barata, acessível” e tem crescido exponencialmente devido a um “relativo desconhecimento” do mundo ocidental com o Captagon. O organismo alerta para a importância do estudo do fenómeno do tráfico desta droga na Europa, já que, como no caso do terrorista de Nice, o consumo de Captagon pode revelar-se uma pista importante para travar ou combater atentados terroristas, assim como para perceber e antecipar a realidade das operações planeadas pelos jihadistas.

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